Myanmar: cinegrafista preso por desafiar o regime

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30/11/2009 - 00:34 | Editado por Carlos Gorito

The Independent – Londres

Caso um documentário chocante sobre o destino dos órfãos de um ciclone em Myanmar vença um prestigioso prêmio jornalístico em Londres no dia 19 de novembro, será necessário algum tempo até que um de seus realizadores tenha chance de comemorar.

Seis meses após completar a gravação do filme, o cinegrafista conhecido apenas como T foi preso ao sair de um ciber café em Rangoon, ex-capital do país, e levado para a prisão de Insein, na mesma cidade. Semana passada, após quatro meses na cadeia, ele recebeu a notícia de que seria julgado pelo novo crime de filmar sem permissão do governo, que tem uma sentença de no mínimo dez anos de prisão.

Os prêmios Rory Peck são dados anualmente a cinegrafistas independentes e documentaristas que correm os mesmos riscos que Peck – morto por um tiro enquanto filmava o sitio do parlamento russo em 1993 – corria todos os dias. Em Myanmar os obstáculos são um pouco diferentes. Os riscos de ser atingido por um tiro ou por uma bomba enquanto se filma na pacífica e agrária região do delta do rio Irrawaddy, ao sul de Rangoon, são baixos. Contudo, em outros aspectos, esta pode estar entre as tarefas mais perigosas do mundo.

O filme acompanha crianças órfãs por conta do Ciclone Nargis, que atingiu o sul do Myanmar em maio de 2008, matando 140 mil pessoas no delta e desabrigando 2,4 milhões, enquanto lutavam pela sobrevivência na ausência de seus pais, e com a negligente ajuda do Estado. T e seu colega, outro birmanês identificado como Z que se exilou na Tailândia, filmaram até uma visita do General Thein Sein, o primeiro-ministro do governo militar, diante de um grupo de moradores desesperados, enquanto ele dizia para que retornassem ao trabalho e que não esperassem nada do Estado por algum tempo.

T une-se a outros 13 cinegrafistas que trabalham para a organização, baseada em Oslo, Voz Democrática do Myanmar (DVB na sigla em inglês), e que foram presos pelas autoridades do país desde a chamada Revolução de Saffron em 2007 – uma revolta de massa liderada por monges e que abalou o regime mais opressivo da Ásia em seu centro. Desde o golpe de Estado de 1962, que colocou o General Ne Win no poder, os militares que governam Myanmar têm feito todo o possível para controlar as imagens do país que chegam ao mundo exterior. Jornalistas estrangeiros praticamente nunca são autorizados a entrar no país, e aqueles que entram como turistas são quase sempre deportados. Espiões por todos os lados tornam imensamente arriscado para os birmaneses denunciarem o regime.

Todavia, a internet e a miniaturização das câmeras de vídeo deram aos dissidentes novas formas de passar suas mensagens e imagens – como descobriu o governo militar em setembro de 2007, quando cinegrafistas independentes trabalhando para a DVB gravaram as crescentes passeatas de protesto dos monges e enviaram as imagens para o exterior. As fotos foram adquiridas por redes de notícias de todo o mundo, dando ao regime sua pior publicidade em décadas.

Para evitar que a mesma coisa acontecesse novamente, as autoridades aprovaram uma lei banindo a filmagem sem autorização do governo, e começaram a encarcerar por longos períodos aqueles que a desafiassem. Três dos que haviam filmado os protestos dos monges estão cumprindo longas sentenças -  mas a lei não fez nada para conter seus colegas.

Khin Maung Win, vice-presidente da DVB, disse: “Nós tínhamos 30 jornalistas em atividade durante a Revolução de Saffron, dos quais metade está agora inativa – seja presos, escondidos, ou na Tailândia. Mas agora nós temos cerca de 100 outros, espalhados por todo o país, mesmo na nova capital do Myanmar, Naypyidaw.”

Ele continua: “nós normalmente não tornamos pública a prisão de nossos cinegrafistas, mas decidimos fazê-lo desta vez por conta da premiação. Este prêmio é muito importante para nós – se vencermos, será o primeiro êxito de um jornalista birmanês. O prêmio Rory Peck tem tudo a ver com assumir riscos, o que é, sem dúvida, o que fazemos. E nós estamos orgulhosos em poder fazer algo para informar o público internacional.” A principal atividade da DVB hoje é transmitir um pacote de duas horas de notícias e atualidades para Myanmar todos os dias, e que o regime não conseguiu bloquear.

Com mais e mais colaboradores encarcerados, a DVB enfrenta agora o desafio crescente de oferecer apoio a eles e suas famílias até o fim de seus longos calvários. Se “Órfãos do ciclone de Myanmar”, uma produção Quicksilver Media para o Canal 4 ganhar ou não o prêmio, a fundação Rory Peck prometeu contribuir no esforço de mantê-los vivos e sãos.

Peter Popham

Tradução: Carlos Gorito

Para acessar o texto original, clique aqui.

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