Piñera se elege e o Chile dá uma guinada à direita

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25/01/2010 - 11:35 | Editado por Roberto Blum

Página 12 – Buenos Aires

A aliança conservadora liderada pelo proprietário da empresa aérea Lan derrotou a Concertación [coalizão de centro-esquerda] após vinte anos de governo. Piñera obteve 51,6 por cento dos votos e o candidato oposicionista Frei, 48,4. O presidente eleito convocou a oposição a formar um acordo de governabilidade.

O empresário milionário Sebastián Piñera venceu as eleições presidenciais no Chile e se tornou o primeiro presidente eleito pela aliança entre os partido de direita e centro-direita desde a restauração democrática em 1990. Segundo o resultado oficial, com 99 por cento das mesas apuradas, Piñera obteve 51,6 por cento dos votos contra 48,4 do candidato da Concertación.

“Hoje, a maioria dos chilenos se pronunciou com clareza e se mostrou a favor da mudança, do futuro e da esperança”, disse Piñera em um palco montado enfrente a seu diretório de campanha, sob uma imensa bandeira do Chile e com sua esposa Cecilia e seus quatro filhos a seu redor. O empresário eleito presidente convocou a Concertación a forjar um acordo de governabilidade. “Serei um presidente de unidade nacional e vou governar para todos os chilenos, mas com uma preocupação e um carinho especial para os mais humildes e a classe média que tanto necessita”.

Piñera prometeu combater o narcotráfico e a delinqüência e impulsionar o crescimento econômico. Mas também se comprometeu a “manter e ampliar” a rede social criada pelos governos da Concertación. “Nós precisamos de um Estado forte e eficiente, com muito músculo e pouca gordura. Seremos um governo que recuperará a cultura de fazer as coisas bem feitas e fazê-las em caráter de urgência. Há 600 mil chilenos que não têm empregos e que não podem esperar”.

Após a confirmação dos resultados, milhares de simpatizantes saíram às ruas, desde os Bairros Altos [distrito formado pelos bairros Las Condes e Vitacura, que além de possuir elevada altitude, também é uma região de elevado poder aquisitivo] até o centro da cidade, com bandeiras e camisetas com a estrela multicolorida que representa a campanha de Piñera.

Após receber as felicitações de Frei, Piñera respondeu com um convite a firmar acordos partidários. “Para ter um bom país, precisamos não somente de um bom governo, mas também de uma boa oposição; e eu tenho certeza de que teremos uma oposição leal e construtiva, que vai fiscalizar com rigor, como deve ser feito. Nosso país necessita mais do que nunca de unidade”, completou.

Frei chamou ao diálogo o novo governo e se comprometeu a defender as conquistas sociais da Concertación. “Desde a restauração da democracia, temos sido protagonistas da recuperação do nosso país. O Chile de hoje é muito melhor que o país que recebemos em 1990. Somos hoje mais conscientes da liberdade, da democracia e dos direitos humanos”. O candidato solicitou coesão de sua base de apoio, agradeceu a sua equipe, aos eleitores e especialmente à presidente Bachelet. “Sua excelente gestão levou o Chile a patamares nunca antes vistos”, elogiou.

Depois assumiu o microfone [Ricardo] Lagos [ex-presidente] para pronunciar um discurso emocionado em torno dos avanços feitos pelos governos da Concertación.

“Esta coalizão que governou o país por 20 anos deixa o poder com a cabeça levantada. Recebemos um Chile com a alma quebrada; 20 anos depois é outro Chile. Termina uma etapa histórica e uma nova geração assume o comando na Concertación. São eles os que darão prosseguimento a este sonho que não termina”.

Por sua vez, Carolina Tohá, a aplaudida expoente da nova geração da Concertación, disse que as reformas iniciadas no campo político devem continuar. “Este é um momento difícil, mas  quero reafirmar nosso orgulho pela democracia que construímos. Nossas idéias não foram derrotadas, elas têm mais vigência que nunca. Temos que seguir trabalhando nossa proposta de renovação política com esse ideal, aprofundar a igualdade e ampliar a democracia onde estivermos”, afirmou.

O triunfo eleitoral de Piñera surgiu de uma profunda crise da Concertación, que após vinte anos y quatro governos consecutivos se apresentou dividida no primeiro turno, realizado dia 15 de dezembro.

No primeiro turno, Piñera venceu por 14 pontos sobre Frei, e o ex-deputado da Concertación, Marco Enríquez-Ominami, obteve 20 por cento dos votos como candidato independente. Desde então, os candidatos passaram a cortejar os eleitores de Ominami, cujo fraco e tardio apoio a Frei não foi suficiente para reverter o resultado final nem para esconder a crise que desatou quando os chefes dos principais partidos da Concertación, o socialista e o democrata-cristão, negaram a Ominami e a outros líderes a possibilidade de competir  com Frei em prévias internas da coligação, Frei foi aclamado como o candidato  por um acordo entre as cúpulas dos partidos.

Piñera aproveitou para impor sua mensagem de que a Concertación estava morta, que vinte anos de poder haviam gerado uma maquinaria estatal onde os privilégios e a retribuição de favores tomaram conta, e falou ainda dos escândalos ocasionais de corrupção que sacudiram o governo.

Frei, por sua vez, nomeou chefe de campanha Tohá, a ministra mais bem sucedida do aplaudido governo Bachelet, e encarregou a um grupo de jovens porta-vozes do partido a missão de transmitir a mensagem de que a mudança na Concertación já havia começado.

A atual presidente, Michele Bachelet, assumiu um papel importante na campanha, levantando acusações de interferências da parte de Piñera. Em atos vinculados à defesa dos direitos humanos, a presidente destacou as diferenças entre a Concertación e a base de apoio de Piñera, que contém entre seus membros setores do pinochetismo [defensores da ditadura de Pinochet] puro.

O debate interno pela nomeação ou não de funcionários pinochetistas no futuro governo de Piñera em plena campanha, além de transferir votos para Frei, demonstrou que ainda existem tensões internas à coalizão ganhadora.

Piñera diz representar a direita moderna pós-pinochetista. Condenou as violações dos direitos humanos do governo da ditadura, e até admitiu que deveria ter feito mais. Também disse que como presidente vai acelerar os julgamentos dos repressores, além de ser progressista em temas sociais e de apoiar o casamento gay.

Mas seus aliados eleitorais da UDI [Unión Demócrata Independiente] são ultraconservadores, setores duros da Igreja Católica como o Opus Dei e os Legionários de Cristo, e não têm uma posição crítica, oposto do que declara Piñera, sobre a ditadura de Pinochet.

Dois terços dos eleitores de Ominami apoiaram Frei, mas o terço restante, somado à vantagem inicial de Piñera no primeiro turno, foi suficiente para frear uma retomada de Frei nas últimas duas semanas de campanha, em que  o conflito de interesses entre Piñera-empresário e Piñera-político dominou a campanha.

Piñera é um poderoso empresário liberal de família democrata-cristã. É proprietário de importantes ativos em setores chave da economia, como transporte, mineração, agricultura, meios de comunicação, editoriais e entretenimento. Em seu governo, deverá tomar decisões que afetam cada um destes mercados, e é difícil de imaginar que deixará de lado o setor empresarial para privilegiar outros interesses.

Piñera soube se posicionar entre os setores médios da população como uma espécie de [Silvio] Berlusconi [primeiro ministro italiano] sul-americano, mesmo que prefira se comparar com [Nicolas] Sarkozy [presidente francês]. Promete baixar os impostos, aumentar o policiamento nas ruas e dar uma ajuda pontual de oitenta dólares em março para aliviar a situação dos setores mais necessitados.

Segundo o analista Patricio Navia, que apoiou Piñera, este venceu porque a Concertación deixou de escutar a população. “A coalizão desprezou a vontade cidadã no processo de eleição do candidato do partido, e até agora se nega a fazer a mea culpa… Piñera representa uma nova direita, que renega a ditadura e acredita na igualdade de oportunidades”, escreveu Navia em seu blog. “Piñera não é um candidato perfeito, mas deu mais sinais de querer escutar a voz do povo do que seu adversário”.

Santiago O’Donnell


Tradução: Roberto Blum

Para acessar o texto original, clique aqui.

Imagem retirada daqui.

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