Haiti: o que há por trás da pobreza extrema do país?

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26/01/2010 - 11:51 | Editado por Cristieni Castilhos

Newsweek – Nova Iorque

Muito antes de o maior desastre natural da história do Haiti balançar Porto Príncipe, na tarde de 12 de janeiro, a nação caribenha de 10 milhões de pessoas esforçava-se para alimentar e abrigar a sua população em expansão. Mais de um milhão de famílias dependia diariamente de ajuda alimentar internacional, e pela capital do país se alastram favelas construídas por interioranos desempregados que migraram para a cidade em busca de trabalho.

O Haiti é o país mais pobre do Hemisfério Ocidental, mas sua cultura e história são inegavelmente ricas. Sob o governo francês em no século XVIII, o Haiti foi a mais rica colônia no Novo Mundo e representou mais de um quarto da economia da França. Após uma revolta dos escravos haitianos ter derrotado o exército francês em 1801, a nação recém-independente se tornou o primeiro país do Novo Mundo a abolir a escravidão. Mas a sorte do Haiti declinou quando o século 20 trouxe três décadas de ocupação americana, muitos regimes corruptos, desastres naturais, devastação ambiental e ao flagelo do HIV. A revista americana Newsweek debateu o passado e o futuro incerto do país com Michele Wucker, diretora executiva do Instituto Mundial de Polícia e autora do livro Why the Cocks Fight: Dominicans, Haitians, and the Struggle for Hispaniola (sem tradução para o português).

O Haiti e a República Dominicana fazem parte da mesma ilha, possuem o mesmo clima e geografia. Por que o Haiti é consideravelmente mais pobre?

O Haiti conquistou sua independência após uma longa revolução que destruiu uma grande parte do país. Eles foram então obrigados a pagar uma grande indenização para a França para que muitos países, incluindo os Estados Unidos, não se recusassem a reconhecer a independência do Haiti por medo de que ela incentivasse uma revolta dos escravos americanos. Mais recentemente, tanto o Haiti quanto a República Dominicana foram ocupados pelos Estados Unidos, porém, o Haiti foi ocupado por muito mais tempo. Enquanto os Estados Unidos não foram expulsos, o que só ocorreria em 1934, o Haiti via atrofiarem suas próprias instituições.

Como o legado deixado pelos Duvalier (Francois “Papa Doc” e seu filho, Jean-Claude “Baby Doc”, que governaram o Haiti de 1957 a 1986) contribui para a situação atual do país?
Os Duvalier deixaram o Haiti economicamente dizimado. Um grande número de profissionais instruídos deixou o país durante os dois regimes, e o período que se seguiu foi tão instável que ficou difícil fixar raízes e construir uma infra-estrutura. O investimento externo era limitado, porque não havia um ambiente de negócios confiável.

O Haiti tem uma história de limitação da propriedade estrangeira em suas terras e indústrias. Será necessário que o país abra suas fronteiras para as multinacionais? Isso pode fornecer a segurança necessária para que haja investimento estrangeiro?
Os haitianos devem se entender que eles estão no controle do seu próprio destino. Após o golpe contra o presidente Aristide em 2004, havia muita controvérsia sobre qual caminho a economia haitiana deveria seguir. Muitos haitianos sentiam que a reforma estava sendo ditada por Washington. Não foi dada ao país a chance de ajudar a si mesmo, o que piorou os níveis de instabilidade política.

Como o Haiti poderia construir um sistema agrícola eficiente?
Quanto à competição que os agricultores haitianos enfrentam com as importações dos Estados Unidos, isso levanta a questão mais ampla de como os Estados Unidos subsidiam a sua agroindústria e como se livram do excedente da colheita sob forma de ajuda alimentar. Esta prática tem prejudicado muito o Haiti e outros países em desenvolvimento. Para o Haiti sustentar o seu próprio povo, é preciso reconstruir as estradas e a infra-estrutura necessária para transportar a safra internamente.

Qual o impacto do desmatamento e da erosão do solo sobre o Haiti?
O desmatamento tem piorado drasticamente o impacto de furacões e tempestades tropicais. Na fronteira sul entre os países, você pode ver que a floresta verde acaba – o lado haitiano é estéril.

Dado que o Haiti é vulnerável a furacões e terremotos, seria prudente estabelecer normas de construção e outras iniciativas em resposta a catástrofes. Como isso pode ser implementado?
Muitos dos haitianos que vivem fora do país estão interessados em voltar e ajudar, e isso irá desempenhar um papel importante na reconstrução do Haiti. Ao mesmo tempo, existem administradores de grandes organizações internacionais vivendo no Haiti, que são bem pagos e vivem em casas encantadoras. Esses recursos poderiam ser gastos de forma mais eficaz empregando os haitianos em vez de vários consultores internacionais.

Como o racismo e a identidade cultural tiveram impacto sobre a interação do Haiti com outros países?
Os haitianos são muito orgulhosos de sua herança, como deveriam ser. Mas quando você tem um país que é constantemente ridicularizado e acusado de fazer um pacto com o diabo, é difícil obter o apoio e os investimentos de que o país necessita. O Haiti tem feito coisas surpreendentes. Ser o país que iniciou o fim da escravidão é extremamente significativo. O Haiti tem música fantástica, uma língua que é muito inteligente e criativa, pessoas com um espírito fantástico e com ética de trabalho. Essas coisas são muito facilmente esquecidas pelos outros, mas qualquer um que tenha passado algum tempo no Haiti não tem como evitar se apaixonar pelo país.

 

Karen Fragala Smith

Tradução: Cristieni Castilhos

Para acessar o texto original, clique aqui.

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