Alemanha: O Big Brother assiste a você assistindo ao Big Brother
27/01/2010 - 14:51 | Editado por Jonas LunardonA décima temporada da versão alemã do Big Brother começou dia 11 de janeiro. Apesar do formato original ser cada vez menos seguido, o programa fez mais do que apenas revolucionar a televisão. Hoje em dia, todos e tudo estão sobre constante observação.
Parece que finalmente se constatou que a televisão estava, de fato, causando o inevitável declínio da cultura Ocidental. O reconhecido político alemão Kurt Beck clamou por um boicote, enquanto o então Ministro do Interior, Otto Schily, comparou o novo programa a extremamente controversa prática do Lançamento de Anões [jogo boêmio em que os competidores tentam atirar anões mais longe do que os adversários]. Uma série de críticos e moralistas da mídia se alinhou a esse discurso indignado contra a barbárie na televisão.
Isso foi em 2000, ano em que o reality show Big Brother estreou nas telas alemãs.
Todos estavam se perguntando mais ou menos a mesma coisa: se este é o início – confinar pessoas em contêineres como animais para que elas sejam colocados em exibição, como se estivessem no zoológico – o que podemos esperar no futuro?
Naturalmente, o esperto inventor do Big Brother, o produtor de TV holandês John de Mol, não fez absolutamente nada para contradizer a impressão que muitos tiveram de que a televisão comercial poderia ir ainda mais fundo na escala do mau gosto. Ele ainda cogitou publicamente a idéia de criar um show no qual 10 pessoas seriam postas em um avião que estaria prestes a cair – com nove pára-quedas.
Sem escapatória
A segunda-feira que vem marcou o início da décima temporada do programa voyeur na Alemanha, que apesar de incluir muitas mudanças, tanto no contêiner vivo quanto nas regras, dificilmente irritará alguém mais. Ainda assim, o Big Brother iniciou uma nova era na televisão, na mídia e no jeito em que nós percebemos a nós mesmos e aos outros.
Os programas de TV não ficaram piores, mas o contêiner virtual cresceu mais e mais. Atualmente ele engloba praticamente tudo e todos. E uma vez que um competidor está lá dentro, não há escapatória – mas também quase ninguém quer pular fora. Qualquer um pode sentar no seu próprio pequeno contêiner em casa, simplesmente ao deixar o mundo, via Internet, participar ativamente do seu cotidiano.
O Big Brother se tornou a perfeita metáfora para as mudanças na televisão e na cultura midiática dos últimos 10 anos, mesmo que não haja nada de muito revolucionário em relação ao programa original. A audiência nunca bateu recorde algum, e a mãe de todos os reality shows tampouco conseguiu produzir celebridades instantâneas. Outros programas – incluindo “Germany Seeks a Superstar”, a franquia alemã de “American Idol” [programa de calouros estadunidense], parecida com “Germany’s Next Top Model” – foram muito mais eficientes em encher os tablóides com material fresco todos os dias.
A idéia pode estar obsoleta. Mas como um símbolo de vigilância constante e daonipresença da mídia, o Big Brother alcançou um nível que nem o escritor George Orwell, autor da novela “1984”, que inspirou o nome do programa, jamais imaginou. Hoje, aquilo que afetava apenas alguns participantes em 2000 tornou-se rotineiro. Nós não estamos mais a salvo de webcams, da vigilância pública e de reality shows. A televisão e a Internet estão constantemente transmitindo coisas das mais ordinárias e banais. Qualquer um pode se tornar uma celebridade de maneira relativamente fácil, mas quase ninguém consegue distinguir entre o que é real e o que é ficção nas criações da mídia conhecidas como “reality” shows.
Completo Exibicionismo
Plataformas on-line como Facebook e Twitter, programas de TV como “America’s Got Talent”[programa de calouros estadunidense], o jornalismo amador de leitores-repórteres, o portal de vídeo YouTube e o portal de filme sexuais YouPorn são todos parte de um desenvolvimento social ambivalente que transita entre o completo controle e o completo exibicionismo. Milhões e milhões de pessoas participam, ou confiam, nesses fenômenos da mídia.
A internet tem grande parte da responsabilidade por esse movimento, mas não toda. O critério-chave é a visibilidade de todos, a toda hora. Antes do Big Brother e dos reality shows que vieram depois, a mídia se focava quase que inteiramente nas estrelas e celebridades. Para estes, a visibilidade crônica era o preço a ser pago pela fama – uma fama que alguns eventualmente vêem como uma maldição.
Hoje em dia, ninguém pode estar completemente seguro de que não está sendo observado. Se alguém é fotografado por um celular enquanto está bêbado na Oktoberfest em Munique, se é pego por um blogger enquanto cutuca o nariz no metrô ou, então, se escolhe aparecer em frente às câmeras em um reality show, a única coisa que importa é ser presente na mídia.
Vidas abertas ao público
“Hoje em dia, todos vivemos vidas muito mais públicas”, diz Helmut Thoma, ex-diretor do canal de TV alemão RTL Television. Ele está impressionado com como as pessoas têm vontade de abrir suas vidas para o público, com centenas de milhares de pessoas revelando seus segredos mais profundos para o mundo. “Todo pequeno aspecto da vida é anunciado por Twitter – coisas com ir ao dentista ou cortar o cabelo”.
“No passado, as pessoas olhavam pela janela e esperavam alguma coisa acontecer”, diz Thoma. “Mesmo que fosse um acidente de carro”. Mas hoje, ele diz, os espectadores assistem à TV esperando ver pessoas brigando ou transando. “O revolucionário acerca do Big Brother é que você poderia espiar as pessoas sem precisar sair de casa”. Hoje, diz Thoma, as pessoas sentam nos seus pequenos contêineres, assistindo a outras pessoas nos pequenos contêineres delas, que, por sua vez, assistem a outras pessoas. O enorme debate público sobre privacidade que o lançamento de Big Brother provocou agora parece, de certa forma, antiquado.
Uma Realidade Mais Excitante
O diretor francês François Truffaut disse uma vez que o cinema era sobre belas mulheres fazendo algo belo. Desde Big Brother, a televisão é sobre pessoas normais fazendo coisas normais. O problema com tudo isso é que, eventualmente, coisas normais se tornam entediantes.
Ao que parece, a solução é deixar a realidade mais excitante.
No verão de 2008, a rede holandesa de TV pública BNN anunciou um experimento bizarro: uma garota chamada Lisa, que tinha uma doença incurável, decidiria quem de um grupo de pacientes à espera de um doador de rim ganharia o seu órgão. No fim, o âncora Patrick Lodiers revelou que tudo aquilo era um ato de publicidade e que “Lisa” na verdade era uma atriz. Mas era tarde demais para parar a onda de indignação, enquanto veículos de comunicação, do New York Times à Al-Jazeera, criticavam duramente o mau gosto do ato. A BNN respondeu que a mídia inflamou, conscientemente, ainda mais aquilo tudo.
Até farsas como essa há muito vêm sendo ultrapassadas pela realidade. Na Alemanha, a RTL já transmite certos “reality” shows que são totalmente falsos – e que geralmente têm um final melhor do que histórias verdadeiras retiradas da vida real.
Nos anos 60, o historiador estadunidense Daniel Boorstin cunhou o termo “pseudo-evento”, que ele aplicava à ocasiões como entrevistas coletivas e conferências de imprensa, sobre as quais ele argumentava que eram manipuladas e não ocorreriam se não existissem jornais ou TV. Os jornalistas, disse Boorstin, usam essa técnica para criar seus próprios eventos, pois, ao contrário, não haveria suficiente notícias que valessem ser publicadas.
Quebrando Tabus
Tais preocupações parecem totalmente ultrapassadas na presente era da hiperrealidade. Os fakes [falsos] se tornaram uma forma de arte no YouTube. E personagens fictícios como Horst Schlämmer, candidato de mentira criado pelo famoso comediante alemão Hape Kerkeling, atraíram mais atenção na última eleição do que muitos candidatos verdadeiros que disputavam o posto de chanceler. Como se pode esperar que um programa como Big Brother se mantenha no mesmo nível?
Mesmo os recentes esforços na seleção do que parece ser o último reality show britânico baseado no formato de confinamento não parecem ser nada mais do que um evento exagerado de relações públicas: os produtores do show estão procurando veteranos de guerra que perderam uma perna ou um braço no Iraque ou no Afeganistão. Se o show é real ou não, a Endemol, empresa criadora do Big Brother, conseguiu fomentar ainda mais sua fama por quebrar tabus.
Markus Brauck, Isabell Huelsen and Martin U. Mueller
Tradução: Jonas Lunardon
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Imagem retirada daqui.



