América Central: A máfia das narcoavionetas

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29/01/2010 - 18:39 | Editado por Roberto Blum

La Semana – Bogotá

“Cai a primeira Narcoavioneta de 2010”. Essa foi uma das manchetes da imprensa de Honduras no último dia 9 de janeiro. Ela se referia à descoberta de um avião bimotor em uma estrada de um pequeno vilarejo chamado Areias Brancas. Após a aterrissagem forçada, os ocupantes da aeronave descarregaram o carregamento de cocaína e puseram fogo no avião. Embora o fato tenha ocupado as primeiras páginas, para os hondurenhos, na verdade, o assunto já se tornou extremamente familiar.

Trata-se da narcoavioneta, como são chamados estes aviões; essa é a 52ª a ser encontrada, só nos últimos oito meses. A maioria dessas aeronaves vêm da Colômbia e são sempre comandadas por pilotos colombianos, quase todos oriundos dos Llanos [as margens do rio Orinoco, região que comporta um ecossistema rico que marca a região fronteiriça entre Colômbia e Venezuela], vindo principalmente de Villavicencio [principal cidade da região]. Outros 48 aviões da máfia colombiana surgiram durante 2009, na Guatemala, em Nicarágua e em El Salvador, o que demonstra claramente o ressurgimento da máfia, com uma nova geração de pilotos. Ironicamente, pouco se sabe ou se fala sobre o tema na Colômbia , ao contrário do que se passa na América Central. Lá, muitas das histórias de como chegam os colombianos e seus carregamentos de coca parecem ter sido retiradas do roteiro de um filme de Hollywood.

Em 6 de dezembro, um avião bimotor branco com a bandeira da Colômbia, um HK-G-4324, carregado com 500 quilos de cocaína, ficou sem gasolina antes de chegar a seu destino. Às 6hs da tarde, o piloto optou por pousar em uma estrada perto da cidade de Yorito, no norte de Honduras. Na operação, a aeronave “atropelou” e matou um casal que se dirigia ao seu casamento e estava na estrada. Uma semana antes, a mídia havia relatado a história de um motoqueiro que também morreu quando uma das narcoavionetas que tentava pousar caiu em cima dele.

Não menos comoção causaram as quatro narcoavionetas que pousaram entre 9 e 17 de setembro. Uma caiu em um cemitério, aonde vários caminhões chegaram para descarregar a aeronave e depois incendiá-la em pleno terreno sagrado. Outra aterrissou no meio de uma reserva indígena. Quando os traficantes de droga voltaram para recuperar a carga, atacaram a balas os indígenas, que se recusavam a devolver a cocaína que lhes havia caído do céu. Em outro caso, a surpresa foi para as autoridades, que encontraram no meio de uma estrada empoeirada que une dois pequenos municípios, nada mais, nada menos do que um gigantesco avião de carga Antonov, com capacidade para cinco toneladas, que foi abandonado pelos traficantes após carregarem a cocaína para vários caminhões.

Os aviões nem sempre são encontrados abandonados nas estradas ou incinerados. Em 25 de outubro do ano passado, graças a um informante, as autoridades chegaram a um lugar conhecido como Brus Laguna, que tinha sido definido pelos traficantes como uma espécie de cemitério de aviões da máfia. No local foram enterrados cerca de 20 artefatos entre monomotores e bimotores, helicópteros e aviões de carga, incluindo vários Antonov. Segundo cálculos das autoridades hondurenhas, ingressaram no país, durante 2009, cerca de 100 toneladas de cocaína vindas da Colômbia. Estas estimativas podem ser consideradas conservadoras, por serem baseadas em aeronaves que foram encontradas devido a acidentes aéreos ou as que foram incineradas. Sem levar em conta os vôos “bem sucedidos” – aqueles em que o piloto chega ao seu destino, descarrega a cocaína e consegue voltar com vida e com a narcoavioneta intacta.

O negócio é bastante simples e muito eficaz. A maioria das aeronaves utilizadas são roubadas no Brasil ou na Venezuela. De lá são levadas para hangares em Meta y Vichada [segunda maior província colombiana, localizada na fronteira com a Venezuela, por onde passa o rio Meta] ou para algumas localidades na Venezuela, onde começa um processo chamado pelos traficantes de enchonche.  Este consiste em remover as cadeiras e equipamentos do avião para abrir o espaço necessário para carregamento de coca. Da mesma forma, comportam mangueiras para abastecimento, em pleno vôo, de combustível guardado em latas de gasolina no interior da aeronave.

Os aviões são roubados, o que explica em grande parte porque em muitos casos os traficantes de drogas os abandonam ou incineram quando caem. A droga é carregada em pistas perto da fronteira com a Venezuela, para que possam estar no espaço aéreo do país vizinho em minutos e assim evitar, caso sejam detectados, que as Forças Armadas Colombianas possam interceptá-los. As rotas são simples: da Colômbia vão para a Venezuela e de lá para a América Central, onde a droga é descarregada e segue caminho, por terra ou mar, para os Estados Unidos. Durante o ano passado, a instabilidade política de Honduras tornou o país o destino preferido das narcoavionetas – devido justamente aos seus problemas internos.

O fato de a maioria dos pilotos que se dedicam a essas atividades serem nativos da região de Los Llanos tem uma explicação. Um dos mais importantes líderes e também pioneiro dessas operações é um homem que já foi identificado pelas autoridades anti-narcóticos internacionais. Se trata de Juan Ramirez, conhecido pelo apelido de Manicomio pela sua arriscada forma de voar.

Manicomio começou a recrutar e treinar os pilotos para que pudessem trabalhar com ele, pois não dava conta sozinho. A maioria de seus alunos eram seus amigos de Villavicencio ou ambiciosos jovens que  cooptava nas dezenas de escolas de aviação que existem em Los Llanos. Em pouco tempo, conseguiu formar uma frota a seu serviço, permitindo-lhe expandir, a tal ponto que hoje ele é quem controla as principais rotas aéreas na extensa fronteira com a Venezuela. Segundo investigações de autoridades, nada menos do que 40 pilotos trabalham atualmente para ele.

Quando um de seus pilotos tentou se tornar independente ou se rebelar, Manicomio não hesitou em matá-lo. Embora as narcoevionetas já existam há décadas, hoje o negócio, devido a esse homem, parece estar nas nuvens.

La Semana.com

Tradução: Cristieni Castilhos

Para acessar o texto original, clique aqui.

Semana – Bogotá

“Cai a primeira Narcoavioneta de 2010”. Essa foi uma das manchetes da imprensa de Honduras no último dia 9 de janeiro. Ela se referia à descoberta de um avião bimotor em uma estrada de um pequeno vilarejo chamado Areias Brancas. Após a aterrissagem forçada, os ocupantes da aeronave descarregaram o carregamento de cocaína e puseram fogo no avião. Embora o fato tenha ocupado as primeiras páginas, para os hondurenhos, na verdade, o assunto já se tornou extremamente familiar.

Trata-se da narcoavioneta, como são chamados estes aviões; essa é a 52ª a ser encontrada, só nos últimos oito meses. A maioria dessas aeronaves vêm da Colômbia e são sempre comandadas por pilotos colombianos, quase todos oriundos dos Llanos [as margens do rio Orinoco, região que comporta um ecossistema rico que marca a região fronteiriça entre Colômbia e Venezuela], vindo principalmente de Villavicencio [principal cidade da região]. Outros 48 aviões da máfia colombiana surgiram durante 2009, na Guatemala, em Nicarágua e em El Salvador, o que demonstra claramente o ressurgimento da máfia, com uma nova geração de pilotos. Ironicamente, pouco se sabe ou se fala sobre o tema na Colômbia , ao contrário do que se passa na América Central. Lá, muitas das histórias de como chegam os colombianos e seus carregamentos de coca parecem ter sido retiradas do roteiro de um filme de Hollywood.

Em 6 de dezembro, um avião bimotor branco com a bandeira da Colômbia, um HK-G-4324, carregado com 500 quilos de cocaína, ficou sem gasolina antes de chegar a seu destino. Às 6hs da tarde, o piloto optou por pousar em uma estrada perto da cidade de Yorito, no norte de Honduras. Na operação, a aeronave “atropelou” e matou um casal que se dirigia ao seu casamento e estava na estrada. Uma semana antes, a mídia havia relatado a história de um motoqueiro que também morreu quando uma das narcoavionetas que tentava pousar caiu em cima dele.

Não menos comoção causaram as quatro narcoavionetas que pousaram entre 9 e 17 de setembro. Uma caiu em um cemitério, aonde vários caminhões chegaram para descarregar a aeronave e depois incendiá-la em pleno terreno sagrado. Outra aterrissou no meio de uma reserva indígena. Quando os traficantes de droga voltaram para recuperar a carga, atacaram a balas os indígenas, que se recusavam a devolver a cocaína que lhes havia caído do céu. Em outro caso, a surpresa foi para as autoridades, que encontraram no meio de uma estrada empoeirada que une dois pequenos municípios, nada mais, nada menos do que um gigantesco avião de carga Antonov, com capacidade para cinco toneladas, que foi abandonado pelos traficantes após carregarem a cocaína para vários caminhões.

Os aviões nem sempre são encontrados abandonados nas estradas ou incinerados. Em 25 de outubro do ano passado, graças a um informante, as autoridades chegaram a um lugar conhecido como Brus Laguna, que tinha sido definido pelos traficantes como uma espécie de cemitério de aviões da máfia. No local foram enterrados cerca de 20 artefatos entre monomotores e bimotores, helicópteros e aviões de carga, incluindo vários Antonov. Segundo cálculos das autoridades hondurenhas, ingressaram no país, durante 2009, cerca de 100 toneladas de cocaína vindas da Colômbia. Estas estimativas podem ser consideradas conservadoras, por serem baseadas em aeronaves que foram encontradas devido a acidentes aéreos ou as que foram incineradas. Sem levar em conta os vôos “bem sucedidos” – aqueles em que o piloto chega ao seu destino, descarrega a cocaína e consegue voltar com vida e com a narcoavioneta intacta.

O negócio é bastante simples e muito eficaz. A maioria das aeronaves utilizadas são roubadas no Brasil ou na Venezuela. De lá são levadas para hangares em Meta y Vichada [segunda maior província colombiana, localizada na fronteira com a Venezuela, por onde passa o rio Meta] ou para algumas localidades na Venezuela, onde começa um processo chamado pelos traficantes de enchonche. Este consiste em remover as cadeiras e equipamentos do avião para abrir o espaço necessário para carregamento de coca. Da mesma forma, comportam mangueiras para abastecimento, em pleno vôo, de combustível guardado em latas de gasolina no interior da aeronave.

Os aviões são roubados, o que explica em grande parte porque em muitos casos os traficantes de drogas os abandonam ou incineram quando caem. A droga é carregada em pistas perto da fronteira com a Venezuela, para que possam estar no espaço aéreo do país vizinho em minutos e assim evitar, caso sejam detectados, que as Forças Armadas Colombianas possam interceptá-los. As rotas são simples: da Colômbia vão para a Venezuela e de lá para a América Central, onde a droga é descarregada e segue caminho, por terra ou mar, para os Estados Unidos. Durante o ano passado, a instabilidade política de Honduras tornou o país o destino preferido das narcoavionetas – devido justamente aos seus problemas internos.

O fato de a maioria dos pilotos que se dedicam a essas atividades serem nativos da região de Los Llanos tem uma explicação. Um dos mais importantes líderes e também pioneiro dessas operações é um homem que já foi identificado pelas autoridades anti-narcóticos internacionais. Se trata de Juan Ramirez, conhecido pelo apelido de Manicomio pela sua arriscada forma de voar.

Manicomio começou a recrutar e treinar os pilotos para que pudessem trabalhar com ele, pois não dava conta sozinho. A maioria de seus alunos eram seus amigos de Villavicencio ou ambiciosos jovens que cooptava nas dezenas de escolas de aviação que existem em Los Llanos. Em pouco tempo, conseguiu formar uma frota a seu serviço, permitindo-lhe expandir, a tal ponto que hoje ele é quem controla as principais rotas aéreas na extensa fronteira com a Venezuela. Segundo investigações de autoridades, nada menos do que 40 pilotos trabalham atualmente para ele.


Quando um de seus pilotos tentou se tornar independente ou se rebelar, Manicomio não hesitou em matá-lo. Embora as narcoevionetas já existam há décadas, hoje o negócio, devido a esse homem, parece estar nas nuvens.


La semana.com

Tradução: Cristieni Castilhos

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