China: Remendando a história de uma revolução
01/02/2010 - 10:52 | Editado por Carlos GoritoPEQUIM – Era o auge da Revolução Cultural, mas no coração da capital chinesa, à vista dos olhos espiões das embaixadas estrangeiras, jovens pequineses adotavam princípios capitalistas.
Corrompidos por sonhos de lucro, multidões de 500 ou mais se reuniam todos os domingos em uma rua no distrito das embaixadas para juntar-se em um comércio vergonhoso. “Eles estão aprendendo a fazer negócios e levantar dinheiro,” escreveu sinistramente um funcionário municipal. “Isto é altamente nocivo ao crescimento saudável dos sucessores da revolução proletária.”
Assim era o estado das coisas em 1966, quando vender pombos em uma improvável feira de rua era visto como um obstáculo ao triunfo do socialismo – e também, complementou o funcionário, um desperdício de ração para pássaros.
Os registros da feira de pombos de Pequim, assim como outros milhares de documentos da Revolução Cultural, ficaram silenciosos por décadas, considerados segredos de Estado por um governo pouco interessado em destacar os excessos de Mao. Mas no ano passado, a China silenciosamente abriu as pastas de documentos selecionados do governo referentes àquela época, em Pequim, Xangai e Xian.
E assim, as cortinas começaram a se levantar para esta e outras histórias triviais da Revolução Cultural – algumas tristes, outras engraçadas; a maioria desinteressante ao extremo.
Os arquivos da Revolução Cultura, que durou de 1966 até a morte de Mao, em 1976, respondem por apenas 16 dos 21.568 volumes que o Arquivo Municipal de Pequim tornou público em quatro diferentes levas – em 1996, 1997, 2001 e 2009. (Os outros arquivos cobrem períodos da História chinesa desde 1906.) Armazenados em fichários grossos empilhados em estantes de biblioteca, eles podem ser vistos no edifício do Arquivo Municipal, uma construção moderna e espaçosa, com cadeiras estofadas e uma atmosfera acadêmica, ao sul da cidade.
Os arquivos amarelados permitem dar uma espiada nas atrocidades daqueles dias: denúncias de pais por filhos; humilhação de intelectuais; e milhões de vidas arruinadas pelas Guardas Vermelhas, sob a ordem de reconstruir a sociedade pela revolta. O culto à personalidade de Mao fez dele um deus vivo, e violência armada estourou em torno de suas preferências. Tudo era politizado. Muitos se suicidaram.
Hoje, aquela era foi tudo menos apagada da história oficial da República Popular, com seus horrores maquiados nos livros de História. Enquanto muitos jovens chineses sabem que o país passou por um período de turbulência, poucos têm alguma idéia da sua selvageria extrema. Fatos que eram “arrasa-quarteirões foram transformados agora em palavras com sentidos vagos e confusos”,escreveu Chen Xiaojing, um dirigente do Partido Comunista da época, em um registro minuciosamente traçado de suas experiências, “Meus anos de Revolução Cultural”.
O porquê de o governo liberar alguns documentos daquela época continua obscuro. Funcionários do Arquivo recusaram repetidos convites para entrevistas. Especialistas dizem que os arquivos contêm pouco, senão nenhum, material que os censores do governo considerariam provocativo.
“Para gente como eu, que estava pesquisando profissionalmente sobre a Revolução Cultural, é melhor do que não ter nada”, disse Xu Youyu, historiador e ex-pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais. “Mas as coisas que eu quero descobrir são, por exemplo, quantos lares as Guardas Vermelhas atacaram, e o que eles levaram de cada casa. Não existe chance alguma de encontrar essas coisas nesses documentos.”
“Se você tornar essas coisas públicas, as pessoas podem começar a se perguntar por que isso aconteceu. E isso não é uma questão dirigida apenas a 1966, mas pode se transformar e se dirigir à situação da China atual.”
Ainda assim, uma foto da vida na China há 40 ou 50 anos aparece em meio aos arquivos. Os documentos, alguns quase transparentes e finos como um lenço de papel, incluem rascunhos de discursos escritos à mão, listas de cotas de produção, letras de músicas, regulamentos governamentais e minutas de grupos que estudavam as palavras de Mao. Os textos adotam a retórica política do dia, na qual todos os problemas eram processados sucintamente em versos que rimam.
Os documentos foram aparentemente filtrados de qualquer coisa que lidasse com mortes e prisões, e descrevem um país ainda fervorosamente comunista, e irreconhecível nos dias de hoje. Eles narram a história de um país na agonia da loucura, quando o “pensamento de Mao Tsé-tung” curava tudo, de ausências até congestionamentos, de química agrícola ao comércio de pombos.
Exemplo: registros de 1972, de uma escola de ensino fundamental fora de Pequim, mostra que alunos de matemática tinham que cantar duas músicas revolucionárias e estudar e discutir seis citações de Mao por 25 minutos em cada aula. Os poucos minutos restantes eram gastos aprendendo matemática.
Em 1967, um relatório requereu a formação de grupos especiais em nível provincial e municipal para “usar todos os meios concebíveis para garantir a produção”, todos os anos, de 13 mil toneladas de plástico vermelho especialmente formulado – necessário para as capas do “Pequeno livro vermelho”, de citações de Mao.
A “Conferência sobre a situação do plástico especial usado pelos trabalhos do líder Mao” proclamou que produzir o plástico era “nossa gloriosa responsabilidade política.” Para responsabilizar a todos, a conferência produziu uma tabela com as metas de produção mês a mês.
Às vezes, os documentos chegam perto do humor negro, ou quem sabe, vermelho. Em 1970, a Conferência Representativa Anual dos Entusiastas dos Trabalhos do Líder Mao da Secretaria Municipal dos Transportes analisou engarrafamentos dos horários de pico decorrentes da necessidade dos trabalhadores chegarem cedo para estudar os trabalhos do Líder Mao. Estes engarrafamentos, concluíram os trabalhadores, eram resultado dos “direitistas conservadores, do departamentalismo egoísta e outras idéias equivocadas”.
Mas ainda há indicações de processos mais sinistros em andamento.
Muitos relatórios começavam com anedotas do comunitário fervor revolucionário. Em um deles, Liu Chunnong, um guarda da segurança de transportes, recontou como em 1968 seus doze peixes dourados de estimação eram seu orgulho e divertimento. Depois de um encontro do Partido, disse, ele pegou os peixes e os enterrou vivos. Criar peixes dourados, escreveu, havia sido criticado como uma prática burguesa.
Em uma série de discursos escritos à mão de 1972, muitos largamente corrigidos à caneta, um professor da periferia de Pequim relembrou como seus camaradas tentaram reeducar “paciente e delicadamente” um professor que não era proletário, mas membro da classe rica. Rodadas de críticas tiveram pouco efeito, então o grupo decidiu ajudá-lo a perceber seus erros através do trabalho físico, capinando fazendas.
“Ele tirou a grama,” diz o discurso. “Primeiro, ele estava agachado, mas ele não conseguia agüentar mais depois de dois dias. Então ele puxava a grama de joelhos. Finalmente, ele o fazia enquanto rastejava.”
Censores do Partido riscaram a história do professor exaurido da versão final do discurso.
Xiyun Yang e Michael Wines.
Tradução de Carlos Gorito.
Para acessar o original, clique aqui
Imagem retirada daqui.
PEQUIM – Era o auge da Revolução Cultural, mas no coração da capital chinesa, à vista dos olhos espiões das embaixadas estrangeiras, jovens pequineses adotavam princípios capitalistas.
Corrompidos pelos sonhos de lucro, multidões de 500 ou mais se reuniam todos os domingos em uma rua no distrito das embaixadas para juntar-se em um comércio vergonhoso. “Eles estão aprendendo a fazer negócios e levantar dinheiro,” escreveu sinistramente um funcionário municipal. “Isto é altamente nocivo ao crescimento saudável dos sucessores da revolução proletária.”
Assim era o estado das coisas em 1966, quando vender pombos em uma improvável feira de rua era visto como um obstáculo ao triunfo do socialismo – e também, complementou o funcionário, um desperdício de ração para pássaros.
Os registros da feira de pombos de Pequim, assim como outros milhares de documentos da Revolução Cultural, ficaram silenciosos por décadas, considerados segredos de Estado por um governo pouco interessado em destacar os excessos de Mao. Mas no ano passado, a China silenciosamente abriu as pastas de documentos selecionados do governo referentes àquela época, em Pequim, Xangai e Xian.
E assim, as cortinas começaram a se levantar para esta e outras histórias triviais da Revolução Cultural – algumas tristes, outras engraçadas; a maioria desinteressante ao extremo.
Os arquivos da Revolução Cultura, que durou de 1966 até a morte de Mao, em 1976, respondem por apenas 16 dos 21.568 volumes que o Arquivo Municipal de Pequim tornou público em quatro diferentes levas – em 1996, 1997, 2001 e 2009. (Os outros arquivos cobrem períodos da História chinesa desde 1906.) Armazenados em fichários grossos empilhados em estantes de biblioteca, eles podem ser vistos no edifício do Arquivo Municipal, uma construção moderna e espaçosa, com cadeiras estofadas e uma atmosfera acadêmica, ao sul da cidade.
Os arquivos amarelados permitem dar uma espiada nas atrocidades daqueles dias: denúncias de pais por filhos; humilhação de intelectuais; e milhões de vidas arruinadas pelas Guardas Vermelhas, sob a ordem de reconstruir a sociedade pela revolta. O culto à personalidade de Mao fez dele um deus vivo, e violência armada estourou em torno de suas preferências. Tudo era politizado. Muitos se suicidaram.
Hoje, aquela era foi tudo menos apagada da história oficial da República Popular, com seus horrores maquiados nos livros de História. Enquanto muitos jovens chineses sabem que o país passou por um período de turbulência, poucos têm alguma idéia da sua selvageria extrema. Fatos que eram “arrasa-quarteirões foram transformados agora em palavras com sentidos vagos e confusos”,escreveu Chen Xiaojing, um dirigente do Partido Comunista da época, em um registro minuciosamente traçado de suas experiências, “Meus anos de Revolução Cultural”.
O porquê de o governo liberar alguns documentos daquela época continua obscuro. Funcionários do Arquivo recusaram repetidos convites para entrevistas. Especialistas dizem que os arquivos contêm pouco, senão nenhum, material que os censores do governo considerariam provocativo.
“Para gente como eu, que estava pesquisando profissionalmente sobre a Revolução Cultural, é melhor do que não ter nada”, disse Xu Youyu, historiador e ex-pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais. “Mas as coisas que eu quero descobrir são, por exemplo, quantos lares as Guardas Vermelhas atacaram, e o que eles levaram de cada casa. Não existe chance alguma de encontrar essas coisas nesses documentos.”
“Se você tornar essas coisas públicas, as pessoas podem começar a se perguntar por que isso aconteceu. E isso não é uma questão dirigida apenas a 1966, mas pode se transformar e se dirigir à situação da China atual.”
Ainda assim, uma foto da vida na China há 40 ou 50 anos aparece em meio aos arquivos. Os documentos, alguns quase transparentes e finos como um lenço de papel, incluem rascunhos de discursos escritos à mão, listas de cotas de produção, letras de músicas, regulamentos governamentais e minutas de grupos que estudavam as palavras de Mao. Os textos adotam a retórica política do dia, na qual todos os problemas eram processados sucintamente em versos que rimam.
Os documentos foram aparentemente filtrados de qualquer coisa que lidasse com mortes e prisões, e descrevem um país ainda fervorosamente comunista, e irreconhecível nos dias de hoje. Eles narram a história de um país na agonia da loucura, quando o “pensamento de Mao Tsé-tung” curava tudo, de ausências até congestionamentos, de química agrícola ao comércio de pombos.
Exemplo: registros de 1972, de uma escola de ensino fundamental fora de Pequim, mostra que alunos de matemática tinham que cantar duas músicas revolucionárias e estudar e discutir seis citações de Mao por 25 minutos em cada aula. Os poucos minutos restantes eram gastos aprendendo matemática.
Em 1967, um relatório requereu a formação de grupos especiais em nível provincial e municipal para “usar todos os meios concebíveis para garantir a produção”, todos os anos, de 13 mil toneladas de plástico vermelho especialmente formulado – necessário para as capas do “Pequeno livro vermelho”, de citações de Mao.
A “Conferência sobre a situação do plástico especial usado pelos trabalhos do líder Mao” proclamou que produzir o plástico era “nossa gloriosa responsabilidade política.” Para responsabilizar a todos, a conferência produziu uma tabela com as metas de produção mês a mês.
Às vezes, os documentos chegam perto do humor negro, ou quem sabe, vermelho. Em 1970, a Conferência Representativa Anual dos Entusiastas dos Trabalhos do Líder Mao da Secretaria Municipal dos Transportes analisou engarrafamentos dos horários de pico decorrentes da necessidade dos trabalhadores chegarem cedo para estudar os trabalhos do Líder Mao. Estes engarrafamentos, concluíram os trabalhadores, eram resultado dos “direitistas conservadores, do departamentalismo egoísta e outras idéias equivocadas”.
Mas ainda há indicações de processos mais sinistros em andamento.
Muitos relatórios começavam com anedotas do comunitário fervor revolucionário. Em um deles, Liu Chunnong, um guarda da segurança de transportes, recontou como em 1968 seus doze peixes dourados de estimação eram seu orgulho e divertimento. Depois de um encontro do Partido, disse, ele pegou os peixes e os enterrou vivos. Criar peixes dourados, escreveu, havia sido criticado como uma prática burguesa.
Em uma série de discursos escritos à mão de 1972, muitos largamente corrigidos à caneta, um professor da periferia de Pequim relembrou como seus camaradas tentaram reeducar “paciente e delicadamente” um professor que não era proletário, mas membro da classe rica. Rodadas de críticas tiveram pouco efeito, então o grupo decidiu ajudá-lo a perceber seus erros através do trabalho físico, capinando fazendas.
“Ele tirou a grama,” diz o discurso. “Primeiro, ele estava agachado, mas ele não conseguia agüentar mais depois de dois dias. Então ele puxava a grama de joelhos. Finalmente, ele o fazia enquanto rastejava.”
Censores do Partido riscaram a história do professor exaurido da versão final do discurso.
Xiyun Yang e Michael Wines.
Tradução de Carlos Gorito.
Para acessar o original, clique aqui
Imagem retirada daqui.



