Agências dinâmicas arrancam notícias da Coréia do Norte
04/02/2010 - 23:15 | Editado por Carlos GoritoThe New York Times – Nova Iorque
SEUL – Para um jornalista que ajudou a descobrir uma das maiores histórias da Coréia do Norte no ano passado, Mun Seong-hwi é extremamente discreto. Ele se apresenta por um codinome. Ele não revela o que fazia na Coréia do Norte antes de sua deserção em 2006, além de dizer que trabalhou em um escritório, para proteger os parentes que ficaram para trás.
Ele também guarda uma muralha de segredos em torno de suas três “fontes alternativas” na Coréia do Norte, as quais diz não saberem que ele trabalha para o Daily NK [Diário da Coréia do Norte], um serviço de notícias online baseado em Seul e detestado por Pyongyang.
No dia 30 de novembro, citando o Sr. Mun e outras “fontes anônimas de dentro da Coréia do Norte”, o Daily NK relatou que, a partir daquele dia, o governo norte-coreano iria desvalorizar radicalmente sua moeda, forçando as pessoas a trocarem suas cédulas antigas por novas a uma taxa de 100 para 1. Além disso, haveria um limite de quanto do dinheiro antigo as pessoas poderiam converter para o novo.
O relatório, que inspirou manchetes no mundo todo e foi posteriormente confirmado por burocratas sul-coreanos, teve amplo impacto. Ele significava, entre outras coisas, que o governo norte-coreano estava combatendo o livre mercado que surgia no país, confiscando muito da riqueza que empreendedores privados tinham acumulado ao comercializar bens em um período em que o sistema de distribuição governamental estava fracassando em atender as necessidades básicas de seu povo.
“Eu me orgulho de meu trabalho”, disse Sr. Mun, um homem de olhar pensativo e cabelo ralo em uma entrevista. “Eu ajudo o mundo lá fora a ver a Coréia do Norte como ela é.” O Diário da Coréia do Norte é uma das seis redes de notícias especializadas em coletar informações da Coréia do Norte que surgiram nos últimos anos. Estes sites ou boletins de notícias contratam desertores norte-coreanos e cultivam fontes dentro de um país imerso em um apagão quase total de notícias.
Enquanto a Coréia do Norte se fecha para o exterior – bloqueia a Internet, interfere em emissões de rádio estrangeiras e monitora chamadas internacionais –, ela difunde suas próprias transmissões, cheias de propaganda, através da porta-voz do governo, a Agência Central de Notícias Coreana.
Mas, graças ao Diário da Coréia do Norte e a outros serviçoes, agora quem está de fora também pode ler uma série de relatórios esclarecedores “escutados-na-Coréia-do-Norte”, muitos sobre assuntos que estão fora da pauta de discussão pública no país, como a saúde do líder nacional, Kim Jong-Il.
Os relatórios são, no máximo, imprecisos, cobrindo pequenos setores da sociedade norte-coreana. Muitos se mostram equivocados, contradizem uns aos outros ou seguem sem confirmação. Mas eles também produziram pequenas pérolas, como a desvalorização da moeda e o aparecimento da gripe suína na Coréia do Norte. Na Coréia do Sul, a mídia tradicional passou a citar regularmente esta indústria de notícias caseira.
“A tecnologia tornou isso possível,” disse Sohn Kwang-joo, editor-chefe do Diário da Coréia do Norte. “Nós pulamos a muralha da Coréia do Norte com telefones celulares.”
Durante a última década, a fronteira do Norte com a China ficou mais porosa, à medida em que a fome levava muitos norte-coreanos a fugirem em busca de comida e um crescente tráfico de bens – e de informações – se desenvolveu. Um novo grupo de comerciantes norte-coreanos negocia acordos de contrabando com seus correspondentes chineses, usando celulares chineses que captam o sinal dentro da fronteira norte-coreana.
Estes telefones se tornaram uma ferramenta de comunicação essencial para os mais de 17,000 desertores norte-coreanos que vivem no Sul, e que tentam restabelecer contato com suas famílias e amigos no Norte.
O Sr. Sohn, um ex-repórter do tradicional jornal diário Dong-A em Seul, tem “correspondentes” sul-coreanos perto da fronteira da China com a Coréia do Norte.Estes voluntários, muitos deles ativistas pró-democracia durante seus anos de estudante, encontram secretamente com norte-coreanos viajando através da fronteira e recrutando informantes dissidentes. Os voluntários usam vistos de negócios, ou ainda fingem ser turistas ou estudantes. “É um trabalho perigoso, e leva um ou dois anos para recrutar alguém”, disse o Sr. Sohn.
No ano passado, a qualidade da informação fornecida por estes novos servidores de notícias melhorou conforme contratavam mais intelectuais norte-coreanos e ex-burocratas que desertaram rumo ao Sul, e que ainda têm amigos dentre à elite norte-coreana, disse Ha Tae-kung, ex-ativista estudantil que administra a Rádio Aberta para a Coréia do Norte e um website.
“Estes altos funcionários fornecem notícias porque eles se sentem inseguros sobre o futuro de seu regime e querem ter uma ligação com o mundo exterior, ou por causa de sua amizade com o desertor, ou por causa de dinheiro”, diz Ha, que também atende por seu nome ocidental, Young Howard.
Todas estas fontes de notícias pagam seus informantes. O Sr. Ha paga um bônus para furos significantes. O Diário da Coréia do Norte e a Rádio Aberta têm cada uma 15 membros em suas equipes, alguns deles desertores, e recebem financiamento dos Estados Unidos, através do Fundo Nacional para a Democracia, assim como apoio de outras fontes públicas e privadas.
Recentemente, eles vêm recebendo dicas de norte-coreanos a respeito de altos funcionários corruptos. “O fato de as notícias virem a público através de grupos civis como o nosso significa que a sociedade norte-coreana está mudando rapidamente,”, disse Pomnyun Sumin, monge budista e líder da Bons Amigos, um grupo de reabilitação baseado em Seul, cujo boletim de notícias revelou a notícia da gripe suína no mês passado.
Alguns informantes se tornaram tão adeptos da tecnologia que eles enviam mensagens de texto, arquivos de áudio e fotos por celular para Seul, disse Kim Heung-gwang, um ex-programador computacional que encabeça a Solidariedade dos Intelectuais da Coréia do Norte, um grupo de desertores que mantém um website.
Levar as notícias para fora da Coréia do Norte é arriscado. O Sr. Kim disse que um de seus informantes foi impedido em maio, enquanto tentava armar um vídeo em uma câmera portátil escondida em um pote de cosméticos. Acredita-se que a informante tenha se matado enquanto estava presa pela polícia, disse ele. “Reflita se eles deveriam deixar suas fontes correr tais riscos”, disse Chang Yong-hoon, que cobre a Coréia do Norte para a tradicional agência de notícias Yonhap, em um recente fórum sobre serviços de notícias. “Eles produziram tantos relatórios equivocados quanto furos reais”.
Kang Chol-hwan, um ex-interno de um campo de prisão norte-coreano que escreve agora para o tradicional diário Chosun, disse que existem “traficantes de informação” na Coréia do Norte, que vendem notícias exageradas e falsas à mídia exterior. Lee Chan-ho, analista-chefe do Ministério da Unificação do governo sul-coreano, alertou que a “enchente notícias brutas, sem comprovação” complica os esforços para entender o Norte.
Ha, da Radio Aberta para Coréia do Norte, cede neste ponto: “Como nossas fontes nunca foram treinadas em Jornalismo, o exagero é um problema para nós. Alguns pedem mais dinheiro pela informação. Nós tentamos comprovar nossos relatórios o máximo possível.”
Sr. Mun, do Diário da Coréia do Norte manda para seus informantes mil renminbi chineses, ou cerca de 250 reais, a cada dois ou três meses. Eles lhe telefonam uma vez por semana em um horário designado. Encontram um lugar onde se sintam seguros da patrulha da polícia norte-coreana que usa um equipamento para detectar usuários de telefones celulares, e discam. Em Seul, o Sr. Mun escuta o toque do telefone, liga de volta, e conversa por cerca de meia hora. Depois da chamada, seus informantes desligam os telefones e os escondem até a próxima ligação.
Recentemente, com tantos acontecimentos na Coréia do Norte, eles têm ligado em horários não combinados, por exemplo, quando ele estava no metrô. “Eu tenho que correr e ligar de volta rápido”, disse o Sr. Mun. “Se eu não o fizer dentro de cinco minutos, ele desligará e eu o perderei”.
Existe ainda uma outra regra estrita.“Nós não sabemos, e nunca perguntamos, os nomes reais um do outro”, disse o Sr. Mun. “Assim é mais seguro para eles. A segurança deles é minha maior preocupação.”
Choe Sang-hun
Tradução de Carlos Gorito.
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Imagem retirada daqui.



