Baleeiros japoneses estão de volta ao mar
05/02/2010 - 17:00 | Editado por Carlos GoritoThe Independent – Londres
TÓQUIO, Japão – Baleeiros japoneses estão de volta ao mar, atrás da carne que poucos comerão. Por volta de abril, outras 900 baleias terão morrido por nada. Então, o que leva os japoneses a desafiar a opinião mundial?
Em um ritual anual que parece inevitável como as marés, a frota japonesa de baleeiros está avançando pelo sul do Oceano Pacífico caçando e matando baleias. Criticada de forma veemente, atacada pelos eco-guerreiros nos navios da Sea Shepherd e perseguida pela mídia mundial, o avanço da frota pode ser retardado, mas não impedido. Em seu retorno aos portos em abril, seu compartimento de carga refrigerado provavelmente estará abarrotado com a carne de 850 baleias minke e 50 barbatanas de baleia. No próximo ano, 50 baleias jubarte, que estão em risco de extinção, poderão ser adicionadas à lista.
Até agora, o Japão saiu ileso do debate sobre o abate anual, mas isso pode vir a mudar. No próximo mês ocorrerá a primeira audiência pública no julgamento dos ativistas do Greenpeace, Junichi Sato e Toru uzuki, acusados de violação e roubo na sua tentativa de expor o desvio da carne de baleia por membros da tripulação a bordo da frota, que vendeu a carne para ganho pessoal. Os ativistas acreditam que o chamado caso “os dois de Tóquio” poderia colocar à prova todo o programa japonês de caça às baleias.
A obstinação japonesa na caça às baleias é um dos mistérios da diplomacia mundial. Por que o país fica zangado e inflexível quando se trata da caça às baleias? Por que o Japão continua a desprezar um dos poucos triunfos duradouros do movimento ambientalista: a moratória de 1986 sobre a caça comercial?
Estranhamente, muito pouco é sabido sobre a dinâmica da caça às baleias no Japão, provavelmente porque a mídia estrangeira faça um trabalho ruim de reportagem sobre isso. Sem uma explicação, o gosto japonês por “sangue de baleia” (como certa vez se referiu o jornal The Independent) parece irracional e bárbaro, alimentando um estereótipo racista que os japoneses não merecem.
Sem dúvida, não é porque os cidadãos japoneses gostam de carne de baleia. Uma pesquisa de 2006 do Greenpeace concluiu que 95% dos japoneses “nunca comeram ou raramente comem” carne de baleia. Com exceção de um punhado de portos locais, dizem que carne fresca de baleia é tão rara quanto carne de vitela no Reino Unido. Apoiadores dos caçadores de baleias respondem que é assim apenas porque a pressão estrangeira deixou a carne cara demais para ir atrás dela. Porém, mesmo depois da moratória internacional de 1986 e do início da caça japonesa com fins “científicos”, 70 toneladas de carne de baleia não foram vendidas, de um total de 1.873 toneladas capturadas, depois que a frota retornou ao porto na primavera de 2001 [no hemisfério norte] – uma fração das 230 mil toneladas consumidas durante o pico da caça no ano de 1962. Embora alguns cidadãos de meia idade ainda apreciem a carne de baleia, a maioria dos mais jovens prefere comer quase qualquer outra coisa. O consumo em massa de carne de baleia, e a indústria que o apóia, foi essencialmente imposto ao Japão, há meio século, pela falta de fontes alternativas.
Tão tedioso quanto parece, a insistência rígida de Tóquio em reverter a proibição de caça às baleias é essencialmente política, e entender o motivo significa voltar nossas mentes até o momento em que a proibição passou a existir. A Agência Pesqueira Japonesa (sigla em inglês JFA), que controla as políticas de caça as baleias do Japão, sente que foi enganada e chantageada a abandonar a caça comercial pelo Ocidente liderado pelos Estados Unidos.
Uma data em particular está marcada na consciência coletiva da JFA para sempre. Em 30 de junho de 1979, o ativista contra a caça às baleias Richard Jones, que mais tarde se tornou um senador australiano, jogou tinta vermelha sobre representantes japoneses numa conferência em Londres da Comissão Internacional de Caça às Baleias (sigla em inglês IWC). Apanhados no meio do crescente movimento ambientalista, os burocratas disseram não ter a menor idéia de porque estavam recebendo a culpa pela destruição das populações de baleias quando, historicamente, os Estados Unidos e a Europa caçaram muito mais baleias.
Nos anos de 1980, como parte de um triste tratado de guerra entre o Japão e o Ocidente, Washington [capital estadunidense] fez pressão para limitar o acesso às suas águas costeiras, que rendiam aproximadamente um milhão de toneladas de peixe por ano aos barcos japoneses. Em um acordo acertado na metade da década, o Japão concordou em retirar suas objeções à moratória de caça às baleias do IWC em retorno à promessa dos Estados Unidos de manter aberto o acesso japonês às suas águas costeiras. Porém, meses depois que o Japão concordou formalmente com a proibição em julho de 1986, sua cota de pesca nas costas estadunidenses foi reduzida pela metade. Dois anos depois, essa cota caiu para zero e uma zangada JFA respondeu ao reativar a agora infame prática da “caça às baleias com fins científicos”.
A JFA sabe que não tem nenhuma chance de conseguir uma maioria de dois terços para derrubar a proibição da IWC. E sabe também que não há nenhuma chance de reavivar o comércio industrial, que é mantido vivo com o apoio do governo. O que a agência pode fazer é lutar pelo direito simbólico à sustentabilidade das baleias, e ocasionalmente provocar a hipocrisia ocidental, o que ela faz muito bem. Por que caçadores estadunidenses matam cinco milhões de “belos cervos com olhos de Bambi” por ano, perguntou o maior diplomata da caça às baleias Joji Morishita em uma entrevista coletiva em janeiro. “Eu não tenho problemas com isso, desde que seja sustentável.”
Para alguns políticos japoneses, o apelo da campanha a favor da caça às baleias é muito claro: o Japão pode desabafar na arena política estrangeira.
Cuidar do que seria basicamente um caso de orgulho nacional ferido deveria ser fácil, mas, depois de duas décadas, as campanhas a favor e contra a caça às baleias estão extremamente determinadas e têm poucos motivos para ceder. Políticos ocidentais não perdem nada em seus países se apenas ignorarem a caça japonesa às baleias. Os políticos de Tóquio podem condenar o “imperialismo cultural” do Ocidente e se beneficiar da reputação de defensores do direito japonês ao “alimento dos mares”.
O que fazer então? Há no mínimo duas décadas, existe uma solução disponível: permitir ao Japão o direito de caçar mais baleias dentro da área de pesca em seu mar territorial em troca da redução proporcional ou do abandono total da caça em alto mar. Basicamente, se trata do chamado “pacote de compromisso” que foi discutido nos últimos dois anos nos bastidores pelo IWC. Os detalhes são deixados de lado. Quantas baleias o Japão poderia capturar? Como os caçadores seriam monitorados? Um acordo desse tipo não seria apenas um prêmio ao Japão pela suas atitudes perigosas, durante as quais o país gradualmente aumentou suas capturas antárticas até as atuais mil baleias por ano?
No entanto, por uma razão a Noruega, que caça quase tantas baleias quanto o Japão, consegue atrair bem menos a atenção, é porque ela não lança suas redes fora de suas águas. Alguns diplomatas japoneses notaram isso e estão ficando cansados das críticas que o Japão recebe toda vez que sua frota deixa o porto. Se Tóquio pode ser persuadida a abandonar sua cota no sul do Oceano Pacífico, limitar ou parar as expedições ao norte e sujeitar sua caça costeira a monitoramento, não seria uma iniciativa que merece uma chance?
Como disse Satu Tetsu, professor de ecologia e ciências do meio ambiente na Universidade de Nagano: “Não é de fato um problema o ressurgimento da indústria de caça às baleias agora; é um problema de orgulho nacional, ou pelo menos de orgulho governamental e burocrata. Eles precisam, basicamente, de uma vitória simbólica.”
Autor: David McNeil
Traduzido por: Aline de Oliveira
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