Turquia muda discurso sobre Armênia

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10/02/2010 - 23:21 | Editado por Carlos Gorito

Asia Times – Hong Kong

Apesar de estudiosos sobre genocídio de todo o mundo concordarem que mais de um milhão de civis armênio-otomanos foram deliberadamente mortos durante a Primeira Guerra Mundial quando as autoridades turco-otomanas os forçaram a deixar a Anatólia em direção ao deserto da Síria, a Turquia sempre negou oficialmente que isso tivesse sido um genocídio. Ancara tem insistido para que uma comissão para estudar essa história trágica seja a base para o seu fracassado acordo de paz com a vizinha Armênia.

A idéia de uma comissão causou muita controvérsia. A Armênia, cedendo à pressão da Turquia e de olho na perspectiva de uma fronteira aberta com o seu bem mais rico vizinho, candidato à União Européia, comprometeu-se com algo que sugere que os acontecimentos do genocídio não são suficientemente conhecidos. Mas, para os armênios, o genocídio realizado contra eles é um aspecto fundamental da sua identidade moderna. E mesmo para os turcos, a negação do genocídio está intimamente entrelaçada com a história da fundação da Turquia moderna, em 1923.

Suat Kiniklioglu, o governante do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento) vice-presidente de assuntos externos e porta-voz da Comissão de Relações Exteriores do Parlamento turco, disse em um e-mail que o governo turco insistiu em uma comissão histórica para “ter um novo olhar sobre as provas [e] a documentação envolvendo os infelizes acontecimentos da Primeira Guerra Mundial. Os acontecimentos de 1915 não podem ser entendidos sem situá-los em um contexto histórico apropriado”.

Esse contexto, disse Kiniklioglu, inclui “… a limpeza étnica de milhões de turcos e muçulmanos dos Bálcãs, do Cáucaso e em outras partes do fragmentado Império [Otomano]“.

Muitos armênios, estudiosos do genocídio e outros mais dizem que isso só racionaliza a negação do genocídio e é uma extensão da política da Turquia de fazer lobby no exterior para evitar o reconhecimento do fato. Alguns dizem também que isso é uma afronta à pesquisa histórica e às lições aprendidas com isso.

Roger W. Smith, um ex-presidente da Associação Internacional dos Estudiosos de Genocídio e atual presidente do conselho acadêmico de diretores no Instituto Zoryan em Toronto, escreveu em uma carta aberta de 30 de setembro de 2009 ao presidente armênio, Serzh Sarkisian, que a comissão proposta “na prática descarta todo o trabalho de investigação que já foi realizado ao longo de décadas e implica que nenhum deles foi imparcial ou científico”. Ele também escreveu que os estudiosos de genocídio não têm nenhuma confiança “que uma comissão politicamente organizada não comprometeria a verdade histórica, especialmente considerando as relações de poder desequilibradas entre a Armênia e a Turquia”. Ele também argumentou que tal comissão iria mostrar “o quão facilmente o genocídio pode ser relativizado, especialmente pelas autoridades”.

Mas alguns duvidam que a comissão poderá ser eficaz o suficiente para justificar o medo. Cengiz Aktar, um funcionário aposentado das Nações Unidas e agora presidente do departamento de Relações da União Européia na Universidade de Bahcesehir em Istambul, dispensou a idéia de que uma comissão seria uma ameaça, dizendo que tal comissão teria tão pouca credibilidade, e seria tão disfuncional, que seria simplesmente inviável. “É ridículo pensar por um segundo sequer que [tal] comissão poderia ainda se reunir, quanto mais decidir sozinhos sobre qualquer assunto [histórico].” Qualquer comissão gerida pelo governo, mesmo que igualmente balanceada, imagina Aktar, consistiria de um lado dos que negam e do outro de estudiosos do genocídio. “Esses caras não são capazes sequer de apertar as mãos”, disse ele.

Aktar é também o criador de um “Pedido de Desculpas” virtual dirigido a armênios, até agora apoiado por mais de 30.000 turcos. Ele sugeriu que liberar o acesso a arquivos relevantes em Ancara, Jerusalém e Boston seria um objetivo mais construtivo para a comissão.

Mas a perspectiva de uma comissão tem um significado inverso; ela pode ser um sinal de, e acabar promovendo, a crescente abertura da Turquia para uma visão menos categórica e dogmática de sua própria história oficial. Escolas turcas ensinam que o genocídio nunca aconteceu; os turcos que publicamente dizem o contrário correm o risco de uma repressão por parte do Estado e de difamação na mídia.
Mas o atual governo do AKP, no poder desde 2002, vem regularmente empurrando a velha guarda – especialmente os militares – para fora do centro do Estado turco. Com grande apoio eleitoral, não há dúvida de que as reformas democráticas do governo ajudaram a consolidar o poder; ainda, em parte graças a este novo ambiente, muitos tabus sagrados a respeito da vida pública na Turquia estão sendo desafiados e cada vez mais turcos, em jornal artigos, livros e conferências acadêmicas, têm questionado a visão negacionistas convencional do genocídio.

O professor Taner Akcam da Universidade Clark, em Massachusetts, um líder dos estudiosos do genocídio e um dos poucos historiadores turcos a inequivocadamente reconhecer o genocídio armênio, rejeita o argumento do governo turco de que contextualizar seja necessário para compreender o que aconteceu em 1915, e diz que a Turquia deve compreender que o debate histórico “acabou”. Ainda assim, Akcam argumenta que a importância do momento não deve ser menosprezada.
“Ninguém entende o suficiente a importância da disposição turca para negociar. Por 100 anos, a Turquia negou tudo. E agora, depois de 100 anos, a Turquia diz oficialmente – ‘OK, vamos negociar sobre a nossa própria história’… Há algo mudando seriamente na Turquia”, disse.
“A República Turca foi estabelecida pela mesma elite burocrático-militar que organizou o genocídio armênio”, disse Akcam. “Sabemos [através de estudos históricos] que uma mudança na elite dominante é pré-condição para enfrentar a história”.

“Há um grande processo de transição na sociedade turca, de um sistema autoritário [do Estado], para um mais democrático e mais europeu. E dentro deste sistema, a Turquia irá, e tem de, enfrentar a sua própria história”.

O governo turco pode utilizar a comissão como um “enfrentamento da operação de resgate”, isto é, para minimizar a culpa tanto quanto possível ao comunicar fatos desconhecidos, e não desejados, para a opinião pública turca, disse Akcam. “Após 100 anos de negação, vocês não pode de repente dizer: Sim, aquilo foi um genocídio. Ou, Sim, foi um crime. Você precisa de uma transição”.

A Turquia fechou suas fronteiras com a Armênia em 1993, durante a guerra armena com o Azerbaijão, aliado da Turquia. Uma vez que os parlamentos armênio e turco ratificarão os protocolos assinados na Suíça pelos respectivos ministros dos Negócios Estrangeiros no outono passado, os dois países vão abrir suas fronteiras comuns e estabelecer relações normais. (Embora ultimamente pareça que a Turquia está disposta a deixar que uma disputa pela província de Nagorno-Karabakh, no Azerbaijão, mas hoje sob controle armênio, possa colocar todo o acordo em risco.)

Espera-se que os burocratas da Armênia, da Turquia e da Suíça, que mediou o acordo de paz, levem em conta a comissão, e, de acordo com o protocolo, realizem “… uma investigação científica imparcial dos registros e arquivos históricos para definir os problemas existentes”. Apesar dos protestos contra a comissão e os outros aspectos do acordo de paz, a Armênia, pobre e sem saída para o mar, tem um claro interesse em uma fronteira aberta com a Turquia, que poderá aderir à União Européia na próxima década.

No final, porém, Akcam acredita que uma verdadeira reconciliação entre os dois países não pode se dar através de comissões ou legislação. Ele lembra as palavras de Hrant Dink, um armênio-turco, editor de um jornal, que virou alvo dos ultranacionalistas pelos seus comentários sobre a reconciliação turco-armênia. Ele foi assassinado fora de seu escritório dojornal em Istambul, em 19 de janeiro de 2007.

“Meu caro amigo Hrant sempre dizia: quando os armênios e os turcos se reunirem, olharem uns para os outros, falarem uns com os outros, o problema do genocídio será resolvido automaticamente.”

Caleb Lauer

Tradução: Cristieni Castilhos

Para acessar o texto original, clique aqui.

Imagem retirada daqui.

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