Em Defesa dos Investimentos Chineses na África
15/02/2010 - 09:42 | Editado por Cristieni CastilhosSPIEGEL ONLINE – HAMBURGO
DAVOS, Suíça – O Ocidente costuma gostar de advertir que investidores chineses estão apenas interessados em explorar as riquezas naturais do continente africano. No entanto, em uma entrevista ao jornal alemão Der Spiegel Online, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Donald Kaberuka, argumenta que os investimentos chineses têm impulsionado a África.
SPIEGEL ONLINE: Sr Kaberuka, a Copa do Mundo de Futebol ocorrerá na África do Sul no próximo verão [hemisfério norte] e existem inquietações na Alemanha a respeito de que o país poderia ser muito perigoso. A África do Sul está pronta para organizar esse evento?
Donald Kaberuka: Novamente, essa é a típica imagem que o mundo tem da África. A África do Sul já organizou muitos eventos de importância internacional. Eu espero que esse evento impulsione a economia da região. Mais que isso, que o mundo possa alcançar uma nova imagem do continente.
SPIEGEL ONLINE: O que o senhor gostaria que as pessoas vissem?
Kaberuka: As pessoas ainda olham para a África primeiramente como um lugar que precisa de caridade. Um lugar para o qual você dá ajuda, ou um lugar de onde você retira minerais ou óleo. De um ponto de vista econômico, muitas pessoas pensam que a África oferece muitos riscos, mais que a Islândia. Porém, na crise atual, muito mais dinheiro tem sido perdido em Wall Street do que em toda a África. Do contrário, nosso sistema bancário se provou muito sólido. E antes da crise financeira, o continente foi a região que mais cresceu, depois da Ásia, com taxas crescentes de 5% ou 6%.
SPIEGEL ONLINE: De que forma o continente tem sido atingido pela recessão mundial? No começo de 2009, o Banco Mundial advertiu que até 30 milhões de africanos empobreceriam e que 700 mil crianças poderiam morrer. Esse pesadelo pode se tornar realidade?
Kaberuka: Quando a crise chegou, existia uma demanda decrescente pelas nossas commodities, de óleo a minerais, de madeira a diamantes. Isso interrompeu um pouco o ímpeto de crescimento. O fluxo de investimentos caiu e as transferências de dinheiro de quem está fora do país, que são extremamente importantes para alguns países, diminuíram. A taxa de crescimento caiu para 3%. No entanto, as conseqüências não foram tão ruins quanto nós pensávamos que poderiam ser. Eu penso que este ano nós veremos novamente uma taxa de crescimento de 5%. E até mesmo espero ver, no próximo ano, um crescimento de 6,5%.
SPIEGEL ONLINE: A China descobriu a África recentemente. O país transferiu mais de 50 bilhões de dólares [mais de R$92 bilhões] em investimentos e crédito para o continente africano, segundo especialistas, cujo foco eram os materiais brutos. Muitos países ocidentais estão preocupados com esse intenso envolvimento chinês.
Kaberuka: Imagine uma mina de cobre que foi fechada há 20 anos. De repente, chegam notícias de que ela será reaberta; as pessoas nas vizinhanças ficam felizes. Você não pode dizer a elas que esses investimentos chineses são ruins. E se os chineses vierem e construírem uma estrada de ferro porque eles querem fazer negócios na região, você também não pode dizer que isso é ruim.
SPIEGEL ONLINE: Até mesmo algumas organizações sindicais africanas estão preocupadas que a China queira apenas obter influência sobre as fontes de riquezas naturais do continente e que a África, no longo prazo, será cruelmente explorada.
Kaberuka: Entretanto, antes dos chineses chegarem, esses materiais estavam debaixo da terra sem uso. Muitas minas de cobre no Congo, por exemplo, estavam fechadas. Quando um investidor diz: “Eu quero fazer negócios aqui e também vou oferecer infra-estrutura”, o que há de errado nisso? Nada – desde que você consiga um bom acordo, um bom contrato. Em função disso, nós criamos no Banco Africano para o Desenvolvimento o mecanismo para dar apoio legal aos africanos, que se destina a ajudar os países a negociarem os contratos.
SPIEGEL ONLINE: Ainda assim, a China está fazendo negócios com países como o Sudão e Guiné, que desconsideram completamente os direitos humanos e os princípios da boa administração. Na Guiné, no último outono, um contrato de 7 bilhões de euros [mais de R$17 bilhões] foi assinado apenas uma semana depois que o exército reprimiu uma manifestação contra o governo, ceifando a vida de 150 pessoas.
Kaberuka: Nós poderíamos tentar trazer os recém-chegados, como a China ou a Índia e outros, para a mesma forma de pensamento dos países da OECD (sigla em inglês para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No entanto, simplesmente apontar o dedo não é a melhor forma de agir. Nós deveríamos estabelecer incentivos para convencê-los. Porém, se ficarmos somente esperando, eles apenas se voltarão para as tradicionais nações doadoras. Por muito tempo, muitos lugares com maus governos, como o regime Mobutu (uma referência a Mobutu Sese Seko, severo ditador do Zaire, hoje conhecido como a República Democrática do Congo), foram ajudados por razões estratégicas. Fora isso, eu penso que um bom governo apenas pode ter base sólida num país quando isso se deve aos seus próprios cidadãos.
SPIEGEL ONLINE: Em outras palavras, prestar auxílio impondo condições não ajuda?
Kaberuka: O auxílio foi condicional por muito tempo. No entanto, não havia uma apropriação local dessas questões, então você apenas tinha um bom governo por um certo tempo. Mas nós podemos conseguir dinheiro à base de desempenho. Desempenho econômico, governamental e da condição das instituições do Estado. Bons realizadores conseguem mais recursos, os improdutivos, menos. Isso funciona.
SPIEGEL ONLINE: Em tempos de crise, o Hemisfério Ocidental tende a se preocupar com seus próprios problemas. O senhor notou alguma queda na ajuda?
Kaberuka: Quando milhares de pessoas estão perdendo seus empregos e suas casas, é claro que você deve estar alerta aos seus próprios problemas. Eleições sempre são vencidas em casa. Até agora não houve cortes repentinos. Os doadores tradicionais estão se esforçando para honrar seus compromissos. Ainda assim, existem muitos países cujo orçamento para ajuda estrangeira é um percentual de seu PIB. Mesmo se eles mantiverem seu compromisso, isso significará menos ajuda.
SPIEGEL ONLINE: O senhor acha que ainda existe uma chance de que as chamadas Metas do Milênio sejam alcançadas?
Kaberuka: Não. De acordo com as metas [definidas no encontro do G8 em] Gleneagles [em 2005], a ajuda para a África deveria ter dobrado para 2010. Isso não aconteceu. Além disso, barreiras comerciais também deveriam ter sido quebradas. Isso também não aconteceu. Ao contrário, medidas protecionistas têm sido aplicadas em muitos países para lutar contra a crise atual.
SPIEGEL ONLINE: Entretanto, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, prometeu avanços na rodada de negociações de Doha em 2010. O senhor vê alguma chance de sucesso?
Kaberuka: Para mim, parece que o ímpeto para se alcançar uma acordo ainda não está lá.
Entrevista conduzida por Anne Seith
Traduzido por Aline de Oliveira
Leia o texto original aqui
Imagem retirada daqui.
SPIEGEL ONLINE – HAMBURGO
DAVOS, Suíça – Ocidente costuma gostar de advertir que investidores chineses estão apenas interessados em explorar as riquezas naturais do continente africano. No entanto, em uma entrevista ao jornal alemão Der Spiegel Online, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Donald Kaberuka, argumenta que os investimentos chineses têm impulsionado a África.
SPIEGEL ONLINE: Sr Kaberuka, a Copa do Mundo de Futebol ocorrerá na África do Sul no próximo verão [hemisfério norte] e existem inquietações na Alemanha a respeito de que o país poderia ser muito perigoso. A África do Sul está pronta para organizar esse evento?
Donald Kaberuka: Novamente, essa é a típica imagem que o mundo tem da África. A África do Sul já organizou muitos eventos de importância internacional. Eu espero que esse evento impulsione a economia da região. Mais que isso, que o mundo possa alcançar uma nova imagem do continente.
SPIEGEL ONLINE: O que o senhor gostaria que as pessoas vissem?
Kaberuka: As pessoas ainda olham para a África primeiramente como um lugar que precisa de caridade. Um lugar para o qual você dá ajuda, ou um lugar de onde você retira minerais ou óleo. De um ponto de vista econômico, muitas pessoas pensam que a África oferece muitos riscos, mais que a Islândia. Porém, na crise atual, muito mais dinheiro tem sido perdido em Wall Street do que em toda a África. Do contrário, nosso sistema bancário se provou muito sólido. E antes da crise financeira, o continente foi a região que mais cresceu, depois da Ásia, com taxas crescentes de 5% ou 6%.
SPIEGEL ONLINE: De que forma o continente tem sido atingido pela recessão mundial? No começo de 2009, o Banco Mundial advertiu que até 30 milhões de africanos empobreceriam e que 700 mil crianças poderiam morrer. Esse pesadelo pode se tornar realidade?
Kaberuka: Quando a crise chegou, existia uma demanda decrescente pelas nossas commodities, de óleo a minerais, de madeira a diamantes. Isso interrompeu um pouco o ímpeto de crescimento. O fluxo de investimentos caiu e as transferências de dinheiro de quem está fora do país, que são extremamente importantes para alguns países, diminuíram. A taxa de crescimento caiu para 3%. No entanto, as conseqüências não foram tão ruins quanto nós pensávamos que poderiam ser. Eu penso que este ano nós veremos novamente uma taxa de crescimento de 5%. E até mesmo espero ver, no próximo ano, um crescimento de 6,5%.
SPIEGEL ONLINE: A China descobriu a África recentemente. O país transferiu mais de 50 bilhões de dólares [mais de R$92 bilhões] em investimentos e crédito para o continente africano, segundo especialistas, cujo foco eram os materiais brutos. Muitos países ocidentais estão preocupados com esse intenso envolvimento chinês.
Kaberuka: Imagine uma mina de cobre que foi fechada há 20 anos. De repente, chegam notícias de que ela será reaberta; as pessoas nas vizinhanças ficam felizes. Você não pode dizer a elas que esses investimentos chineses são ruins. E se os chineses vierem e construírem uma estrada de ferro porque eles querem fazer negócios na região, você também não pode dizer que isso é ruim.
SPIEGEL ONLINE: Até mesmo algumas organizações sindicais africanas estão preocupadas que a China queira apenas obter influência sobre as fontes de riquezas naturais do continente e que a África, no longo prazo, será cruelmente explorada.
Kaberuka: Entretanto, antes dos chineses chegarem, esses materiais estavam debaixo da terra sem uso. Muitas minas de cobre no Congo, por exemplo, estavam fechadas. Quando um investidor diz: “Eu quero fazer negócios aqui e também vou oferecer infra-estrutura”, o que há de errado nisso? Nada – desde que você consiga um bom acordo, um bom contrato. Em função disso, nós criamos no Banco Africano para o Desenvolvimento o mecanismo para dar apoio legal aos africanos, que se destina a ajudar os países a negociarem os contratos.
SPIEGEL ONLINE: Ainda assim, a China está fazendo negócios com países como o Sudão e Guiné, que desconsideram completamente os direitos humanos e os princípios da boa administração. Na Guiné, no último outono, um contrato de 7 bilhões de euros [mais de R$17 bilhões] foi assinado apenas uma semana depois que o exército reprimiu uma manifestação contra o governo, ceifando a vida de 150 pessoas.
Kaberuka: Nós poderíamos tentar trazer os recém-chegados, como a China ou a Índia e outros, para a mesma forma de pensamento dos países da OECD (sigla em inglês para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No entanto, simplesmente apontar o dedo não é a melhor forma de agir. Nós deveríamos estabelecer incentivos para convencê-los. Porém, se ficarmos somente esperando, eles apenas se voltarão para as tradicionais nações doadoras. Por muito tempo, muitos lugares com maus governos, como o regime Mobutu (uma referência a Mobutu Sese Seko, severo ditador do Zaire, hoje conhecido como a República Democrática do Congo), foram ajudados por razões estratégicas. Fora isso, eu penso que um bom governo apenas pode ter base sólida num país quando isso se deve aos seus próprios cidadãos.
SPIEGEL ONLINE: Em outras palavras, prestar auxílio impondo condições não ajuda?
Kaberuka: O auxílio foi condicional por muito tempo. No entanto, não havia uma apropriação local dessas questões, então você apenas tinha um bom governo por um certo tempo. Mas nós podemos conseguir dinheiro à base de desempenho. Desempenho econômico, governamental e da condição das instituições do Estado. Bons realizadores conseguem mais recursos, os improdutivos, menos. Isso funciona.
SPIEGEL ONLINE: Em tempos de crise, o Hemisfério Ocidental tende a se preocupar com seus próprios problemas. O senhor notou alguma queda na ajuda?
Kaberuka: Quando milhares de pessoas estão perdendo seus empregos e suas casas, é claro que você deve estar alerta aos seus próprios problemas. Eleições sempre são vencidas em casa. Até agora não houve cortes repentinos. Os doadores tradicionais estão se esforçando para honrar seus compromissos. Ainda assim, existem muitos países cujo orçamento para ajuda estrangeira é um percentual de seu PIB. Mesmo se eles mantiverem seu compromisso, isso significará menos ajuda.
SPIEGEL ONLINE: O senhor acha que ainda existe uma chance de que as chamadas Metas do Milênio sejam alcançadas?
Kaberuka: Não. De acordo com as metas [definidas no encontro do G8 em] Gleneagles [em 2005], a ajuda para a África deveria ter dobrado para 2010. Isso não aconteceu. Além disso, barreiras comerciais também deveriam ter sido quebradas. Isso também não aconteceu. Ao contrário, medidas protecionistas têm sido aplicadas em muitos países para lutar contra a crise atual.
SPIEGEL ONLINE: Entretanto, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, prometeu avanços na rodada de negociações de Doha em 2010. O senhor vê alguma chance de sucesso?
Kaberuka: Para mim, parece que o ímpeto para se alcançar uma acordo ainda não está lá.
Entrevista conduzida por Anne Seith
Traduzido por Aline de Oliveira
Leia o texto original aqui
Imagem retirada daqui.



