Os maiores idiomas são também os mais simples
02/03/2010 - 12:00 | Editado por Cristieni CastilhosThe Economist – Londres
Por que algumas línguas possuem um monte de terminações verbais, conjugações que mostram como um substantivo deve ser usado e ainda outras frramentas gramaticais, enquanto outras línguas confiam na ordem das palavras dentro da frase e no contexto? O primeiro grupo tende a incluir as línguas faladas por pequenos grupos em ambientes isolados, como a Amazônia ou a Nova Guiné. O último inclui idiomas como o inglês e o mandarim.
Este fato fez estudiosos se perguntarem se os idiomas se simplificam à medida que se difundem. Os pesquisadores se questionaram se o aprendizado de idiomas dominantes, como o Inglês, quando são a segunda língua, levam a perda da bagagem gramatical da língua-mãe. Muitos aspectos gramaticais são, em termos lingüísticos, específicos demais, chegam a ser redundantes. O “s” no final de “os dois meninos” é um exemplo disto, já que “dois”, mostra que se trata de mais do que um menino. Assim, a teoria prossegue: quando os adultos aprendem idiomas, por possuírem menos habilidades comparadas à aquisição linguística das crianças, as partes dispensáveis são dispensadas. Mas alguns lingüistas simplesmente supõem que todas as línguas se tornam mais simples ao longo do tempo, ou que poucos fatores sociais se relacionam com a sua complexidade.
Como descreveram em [seu livro] Public Library of Science (sem tradução para o português), Gary Lupyan, da Universidade da Pensilvânia, e Rick Dale, da Universidade de Memphis, se propuseram a encontrar evidências mais sólidas sobre como a expansão simplifica a linguagem. Eles utilizaram as 2.236 línguas do World Atlas of Language Structures [Atlas Mundial de Estruturas da Linguagem] e procuraram correlações entre o número de falantes de cada língua, o tamanho da área em que ela é falada e o número de línguas vizinhas. Eles atentaram para as correlações na morfologia inflexional das línguas, ou seja, os principais prefixos, sufixos e outras partes obrigatórias, contidas em palavras individuais que carregam significados específicos.
Eles encontraram evidências claras de que as línguas amplamente disseminadas possuem menos destas características. Elas têm menos desinências em substantivos. Os verbos são menos propensos a variar com pessoa, lugar, tempo e assim por diante. O mandarim, por exemplo, não tem um tempo verbal obrigatório para o passado; uma palavra adicional pode vir depois do verbo para indicar que aconteceu no passado ou isso pode ser deixado para o contexto. Em contrapartida, Yagua, uma das línguas falada no Peru, tem rigorosamente cinco formas de distinção. Os tempos verbais do passado devem mostrar se o evento aconteceu há poucas horas, um dia antes, uma semana ou um mês atrás e assim por diante.
O número de falantes de cada língua se correlacionou melhor com a complexidade morfológica melhor do que com o tamanho da área em que se fala do idioma ou o número de vizinhos. Isso faz sentido porque uma língua com uma grande população de falantes provavelmente já foi aprendida por muitas pessoas não-nativas no passado. Por esse raciocínio, uma língua com muitos vizinhos seria mais provável de se simplificar no futuro, à medida que se espalha. Naturalmente, as famílias linguísticas compartilham certas características, mas o Dr. Lupyan e Dr. Dale descobriram que os resultados de sua pesquisa foram significativos mesmo quando a família e a região do idioma foram isoladadas.
Isso deixa a dúvida de por que os idiomas se tornariam de alguma forma complexos. O Dr Lupyan e o Dr. Dale ofereceram várias hipóteses. Uma delas envolve as diferentes necessidades do aprendizado de crianças e adultos. Morfologias complexas são especialmente difíceis para os adultos aprenderem, mas podem ajudar às crianças, pois a redundância reduz a necessidade de fatores não-lingüísticos para o entendimento. (Uma criança de língua espanhola diz “Las casas blancas”, repetindo três vezes que existem várias casas brancas.) Uma hipótese alternativa é que a morfologia complexa melhora a economia e clareza da expressão, algo que é desejável desde que não seja muito difícil de aprender. Uma última possibilidade é que simplesmente grupos de idiomas menores transmitem mais fielmente a gramática para suas crianças, inclusive as redundâncias, mesmo que não tenham nenhum uso.
Uma coisa é certa. Os lingüistas sabem há muito tempo que, apesar do preconceito das pessoas de sociedades ricas, populações “simples” com tecnologias primitivas não falam línguas simples. Pela definição utilizada aqui, as línguas nativas da América do Norte e da América do Sul são as mais complexas do mundo, enquanto as européias são as mais simples.
Tradução: Cristieni Castilhos
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