China: um país sem ideologia

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04/03/2010 - 20:04 | Editado por Carlos Gorito

Spiegel Online – Hamburgo

Entrevista com John e Doris Naisbitt.

SPIEGEL ONLINE: A Google parece estar sendo expulsa da China, um resultado ostensivo do ataque de hackers e porque a empresa não está mais disposta a aplicar a censura às pesquisas feitas. Eles estão fazendo a coisa certa?

John Naisbitt: Eles quebraram um contrato. Para conseguir uma licença, eles concordaram em não permitir pesquisas sobre certos assuntos. E agora, depois de quatro anos, eles dizem que não farão mais isso porque foram hackeados. Na Rússia, os hackers são muito mais ativos e abundantes, mas a Google não disse nada. Lá a empresa tem um grande lucro enquanto que na China não. A Google está quebrando o contrato e colocando a culpa nos outros.

SPIEGEL ONLINE: Então você acha que isso é um golpe publicitário?

Doris Naisbitt: Não podemos afirmar isso, mas foi um presente! Olhe que efeito de marketing maravilhoso isso teve para a Google – seria Davi enfrentando Golias.

John Naisbitt: Digamos que tenha sido um golpe publicitário – não poderia ter tido resultado melhor. Porque aqui você tem a Secretária de Estado Hillary Clinton tomando o lado da Google, sem entender os detalhes contratuais, e fazendo da internet umas das plataformas de política externa da administração. Isso não é uma coisa ruim. Porém, a situação passou de um desacordo contratual para a Secretária de Estado se tornar uma porta-voz da Google.

SPIEGEL ONLINE: O governo chinês vai reagir à pressão externa se ela vier de uma empresa como a Google ou do governo dos Estados Unidos?

John Naisbitt: Eles são preparados para resistir à pressão externa. Eles se ressentem mesmo de estarem sendo atacados. E se ressentem da Google estar colocando-os numa posição em que parece que foi culpa dos chineses, quando foi a Google que iniciou a provocação. Acredito que os chineses devem estar bem irritados. Na China, quando você faz um acordo, não há nada assinado, existe apenas o aperto de mãos. É tudo na base da confiança. No entanto, se você quebra essa confiança, você já era. Essa quebra de confiança é algo realmente sério para os chineses.

SPIEGEL ONLINE: Fundamentalmente, esse é um conflito cultural?

John Naisbitt: Hillary Clinton vai à China [20-22/02/2010]. Ela é muito criticada pelo pessoal dos Direitos Humanos nos Estados Unidos por não ter trazido à tona as questões que eles consideravam importantes. Agora, ela tem a chance de redenção nessa área – estar do lado da Google contra a censura. Nesse sentido, essa é uma importante questão política. Entretanto, para os chineses é uma importante questão cultural.

SPIEGEL ONLINE: Uma das idéias centrais no seu livro é que a China desenvolveu um sistema político que, hoje, rivaliza com as democracias ocidentais. O que exatamente você quis dizer com isso?

Doris Naisbitt: O sistema ocidental é um sistema multi-partidário, e a justificativa para governar é ter sido eleito. O partido A precisa fazer o partido B parecer ruim e vice-versa. É uma espécie de cabo de guerra constante. Na China, o governo delibera e decide ele próprio. Os chineses discutem também, e eles são pessoas muito inteligentes – muito bem educadas e preparadas. Eles estabelecem um objetivo, depois todos se esforçam na direção desse objetivo, criando uma estrutura para as pessoas envolvidas de modo que possam alcançar esse objetivo. A grande vantagem é: se o governo não estiver certo se algo irá funcionar ou não, eles têm áreas especiais nas quais podem fazer testes.

John Naisbitt: Tentativa e erro. Esse é o maior programa experimental jamais visto no mundo. Eles têm um maravilhoso ditado: “Cruze o rio sentindo as pedras.” Os chineses experimentam coisas diferentes, partem dos detalhes e não do geral – são descentralizados. O que funciona eles adotam, o que não funciona eles descartam. Existem muitos exemplos desse tipo de iniciativas detalhistas que são aceitas pelas lideranças e se transformam em diretivas para todo o país. Isso é uma democracia consultiva.

Doris Naisbitt: Se você olhar para o debate sobre os planos de saúde nos Estados Unidos – a China simplesmente teria testado o novo sistema em alguma parte do país. Porém, numa democracia ocidental, isso não é possível.

SPIEGEL ONLINE: Na Alemanha, um sistema como esse não seria possível porque envolveria tratar as pessoas de forma diferente, baseado na região em que elas vivem. Isso é proibido pela nossa constituição [a alemã].

Doris Naisbitt: Os chineses não diriam: “você está nos tratando de forma diferente.” Eles diriam: “Se isso funciona, nós vamos usar também. E se não funciona, então só eles usam.” No Ocidente, a justificativa para governar é vencer uma eleição. Na China, é alcançar resultados.

SPIEGEL ONLINE: No entanto, o que tem de democrático nesse processo?

John Naisbitt: O que significa democracia? Governo do povo. Na China, eles reagem aos desejos do povo. Você pode não acreditar nisso, mas um estudo feito pelo Centro de Pesquisas Pew descobriu que o governo chinês tem uma taxa de aprovação de 89%. Existe muita abertura e liberdade. Os empresários e artistas adoram isso. A energia que isso libera é palpável na China.

SPIEGEL ONLINE: Com um olhar ocidental, a China parece menos uma democracia consultiva e mais uma forma corrompida do sistema comunista. Parece que as pessoas no poder aprenderam a usar as estruturas do capitalismo para seu próprio benefício.

Doris Naisbitt: E isso aconteceu. Em algumas províncias você poderia ter um líder local tirando vantagem do poder local que tem. Porém, o governo central está trabalhando para restringir esse tipo de abuso. Nós monitoramos a mídia chinesa em nosso instituto e os assuntos mais discutidos são a corrupção e o meio ambiente. A maioria dos jornalistas, na China, está na casa dos 20 anos de idade, uma geração que olha para sua nação muito criticamente. Por um lado, eles estão muito orgulhosos de sua China, mas, por outro lado, eles são críticos e identificam os problemas. E cada vez mais se permite que eles falem sobre os problemas.

SPIEGEL ONLINE: Sem medo de repressão?

Doris Naisbitt: Eles estariam com medo de publicar um artigo dizendo “nós queremos derrubar o governo.” Essa é uma linha que eles não cruzariam. No entanto, pouquíssimos chineses realmente querem derrubar o governo. Essa é uma impressão equivocada no Ocidente.

John Naisbitt: O maior problema que temos no Ocidente é essa forma de pensar sobre as coisas que diz que ainda é o Partido Comunista que está lá [na China]. Eles mantêm o nome, mas não há comunistas lá. A China é um país sem uma ideologia. Não há capitalismo. Não há comunismo. Existe um progresso pragmático, passo a passo, para construir uma nova e próspera sociedade.

SPIEGEL ONLINE: Em seu livro, vocês mencionam Jang Zemin e que ele pediu-lhes que escrevessem um livro como o “Megatendências”, seu bestseller desde os anos de 1980, sobre a China. Dez anos depois vocês fundaram seu instituto em Tanjin. Como vocês reagiriam às pessoas dizendo que vocês foram comprados pelo governo chinês para fazer as Relações Públicas deles no Ocidente?

Doris Naisbitt: Nós poderíamos ter tido muito mais lucro financeiro se tivéssemos escrito um livro criticando a China. Não há nenhum incentivo financeiro lá.

John Naisbitt: Nós temos um instituto o qual apoiamos. Não recebemos dinheiro do governo e eles não nos oferecem nenhum. Nosso instituto é uma instituição autônoma e independente. Temos salas ótimas na Universidade de Tanjin, mas apenas porque acham que é benéfico para eles – ajuda a conseguir mais alunos, etc. É uma troca. No entanto, não recebemos dinheiro de ninguém.

Entrevista conduzida por Christian Stöcker

Traduzido por: Aline de Oliveira

Leia o texto original aqui

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