Especulação e crise no mercado mundial de minério de ferro
20/06/2010 - 17:00 | Editado por Frederico BertolDer Spiegel – Alemanha
Mudanças no sistema de preços do minério de ferro abriram possibilidades para especuladores, avisa o presidente da siderúrgica alemã ThyssenKrupp em uma entrevista da SPIEGEL. O resultado poderia ameaçar a economia global e causar uma bolha ainda maior do que aquela que engatilhou a crise dos subprimes nos EUA.
SPIEGEL: Sr. Schultz, enquanto a economia mundial está enfraquecendo, os preços do aço estão subindo a novas alturas. Como é que isso tudo se explica?
Ekkehard Schulz: É fácil: como produtores de aço, nós dependemos de quantidades expressivas de recursos minerais. Nós precisamos de carvão coque, níquel e, o mais importante, de minério de ferro. Nos últimos meses, os preços deste último, em particular, praticamente explodiram. Nós não podemos fazer nada para compensar isso.
SPIEGEL: Estamos familiarizados com esse ponto. A culpa é sempre de alguma outra pessoa.
Schulz: Nesse caso, é verdade. Há apenas alguns grandes produtores de ferro no mundo. Eles estão localizados no Brasil e na Austrália. E nós estamos completamente à mercê dos preços que eles estabelecem.
SPIEGEL: Você está se referindo a gigantes de recursos minerais como Rio Tinto, Vale e BHP Billiton. Mas a ThyssenKrupp tem trabalhado com eles há anos. O que mudou?
Schulz: Os contratos. No passado, nós sempre assinávamos contratos anuais calculáveis com os abastecedores de ferro, contratos nos quais os preços eram definidos para o período inteiro. Agora os três produtores que dominam o mercado têm repentinamente ditado contratos trimestrais, nos quais um novo preço que está ligado à volatilidade do mercado de pronta entrega é definido para cada trimestre. Isso tem consequências fatais.
SPIEGEL: Em que sentido?
Schulz: Ano passado, nós ainda estávamos pagando em torno de $60 [~ R$ 100] por tonelada de ferro do exterior. Agora é mais do que o dobro disso. E o preço do mercado de pronta entrega subiu ainda mais desde que o último contrato foi assinado. O novo sistema está aumentado o preço do aço cada vez mais, prejudicando assim o desenvolvimento econômico em geral.
SPIEGEL: Mas não é incomum que um preço mude no mercado e que ele continue a subir ao passo em que a demanda aumenta.
Schulz: É verdade. Mas o minério de ferro nem escasso é. Infelizmente, eles acabam sendo controlados por alguns grandes produtores. E estes estão irresponsavelmente tirando vantagem de seu poder de mercado.
SPIEGEL: Essas são acusações sérias. Você consegue fundamentá-las com evidências?
Schulz: O Escritório do Cartel Federal Alemão em Bonn [cidade do leste alemão], assim como a Comissão Européia, estão verificando o caso, e nós estamos apoiando-os nos seus esforços. Aliás, nós também pedimos ajuda ao Governo alemão.
SPIEGEL: O que ele deveria fazer?
Schulz: O governo nos prometeu que irá tratar do assunto na próxima reunião do G -20,grupo dos líderes mundiais, em Toronto [maior cidade do Canadá] em junho. Sua intenção é defender um equilíbrio justo e sustentável entre nações que processam recursos naturais e entre aquelas que os produzem.
SPIEGEL: Não é um tanto quanto exagerado tratar deste assunto em tal fórum? Nós estamos falando sobre o sistema de preços para ferro e aço…
Schulz: … e portanto sobre a economia global inteira. Só na Alemanha, mais de 35 por cento do valor industrial adicional depende do aço. Seria impossível calcular o custo de qualquer ponte, arranha-céu ou produção automobilística se o preço do ferro e, consequentemente, do aço, estivesse constantemente mudando e servindo de ferramenta para os especuladores.
SPIEGEL: Qual o papel dos especuladores?
Schulz: O novo sistema de preços abre portas à especulação e à manipulação. Uma bolha enorme ameaça se formar no mercado de recursos naturais. Suas dimensões poderiam até exceder a do problema imobiliário nos Estados Unidos há dois anos.
SPIEGEL: Agora você está exagerando…
Schulz: Não, nem um pouco. Ano após ano, cerca de dois bilhões de toneladas de ferro são consumidos no mercado global. O comércio exterior é responsável mais ou menos a metade disso. Somente uma porção extremamente pequena é vendida no mercado de pronta entrega. Mas alguns contratos maiores nesse mercado são suficientes para manipular intensamente o preço. Isso não tem sido um problema relevante até agora, mas com o novo sistema, no qual os preços são baseados unicamente no mercado de pronta entrega, esse tipo de influência afeta todo o comércio global.
SPIEGEL: Quem teria interesse nisso?
Schulz: Primeiramente os produtores e os países onde eles estão localizados, os quais, em alguns casos, retiram parte do lucro em forma de impostos especiais. Mas agora nós sabemos de alguns grandes investimentos bancários que estão cuidadosamente se preparando para entrar no mercado de minérios.
SPIEGEL: Quem são eles, e como eles estão se preparando?
Schulz: Eu não quero citar nenhum nome aqui, mas são bancos que também estiveram inválidos em outras grandes bolhas especulativas. Eles estão atualmente ativos nos nossos mercados, contratando especialistas em recursos naturais, comprando companhias comerciais e alugando instalações para usar como depósitos nos maiores portos, onde eles podem temporariamente armazenar minério para propósitos especulativos. Eles veem uma oportunidade para conseguir bilhões em lucros.
SPIEGEL: Subindo os preços do mercado de minérios?
Schulz: Desconectando preços da economia real e de recursos naturais do consumo real. Isso já aconteceu com o níquel. Especuladores e bancos já estão colocando no mercado 30 vezes mais níquel do que seu efetivo consumo, de fato, no processamento do aço e outras áreas. No processo, o preço por tonelada flutua entre € 10,000 e €50,000 [entre R$ 25 mil e R$ 50 mil]. Imagine uma situação como essa em um mercado de recursos naturais de larga escala, como o de minério de ferro. As consequências seriam devastadoras.
SPIEGEL: Várias grandes corporações estão estabelecendo departamentos de comércio interno hoje, e se tornando envolvidos no mercado de comércio de recursos naturais. Esta é uma opção para o ThyssenKrupp?
Schulz: Não, nós não desejamos participar de tais lucros especulativos. É claro, nós temos que nos proteger contra flutuações de preço extremas. Para esse fim, nós também conduzimos transações nos mercados, nos quais, por exemplo, quantidades específicas são encomendadas, mais ou menos automaticamente, dentro de variações de preços específicas. Mas no nosso caso, há um verdadeiro propósito econômico para esses chamados derivados, que nos permitem proteger-nos contra a volatilidade dos preços.
SPIEGEL: Não é esse o caso com os bancos?
Schulz: Não, com eles é uma questão puramente de apostar na quantidade certa de evolução dos preços, e lucrar com compras e vendas sem qualquer conexão com a economia real. Esse comércio em derivados, como empreendidos por fundos e bancos, requer regulamentação urgentemente. Esse é o argumento que nós apresentamos em Bruxelas [capital da Bélgica e sede da Comissão Europeia] e ao governo alemão.
SPIEGEL: No passado, a ThyssenKrupp, diferentemente de seus competidores, como ArcelorMittal, falhou em adquirir ações das minas. Não seria essa a verdadeira razão para sua preocupação?
Schulz: Não. Especulação em recursos naturais não são um problema só para a ThyssenKrupp. Se nós não estivermos preparados para tomar ações decisivas contra os especuladores de recursos naturais, eles se tornarão uma ameaça séria à indústria de aço inteira e à economia global. Nós não podemos permitir que isso aconteça.
Entrevista conduzida por Frank Dohmen.
Tradução de Laura Lammerhirt.
Acesse o original aqui.
Imagem retirada daqui.



