Japão: Conservadorismo e inovação na mídia

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15/07/2010 - 22:32 | Editado por Carlos Gorito

The New York Times – Nova Iorque

TÓQUIO, Japão – Há anos, o jornal online JanJanNews tem lançado um ousado desafio à insípida imprensa japonesa, publicando artigos escritos por leitores que abordam assuntos polêmicos como a pesca de baleias e a conspiração da mídia com o governo. Mas o site nunca atraiu leitores ou publicidade o suficiente e foi finalmente forçado a cancelar a maior parte de suas operações há três meses.

JanJan foi o último dos quatro jornais online que ofereciam artigos escritos por leitores e que começaram com grande comoção por aqui, mas todos foram fechados ou reduziram suas atividades nos últimos dois anos.

E não foram somente os sites de jornalismo popular que fracassaram por aqui. Nenhum tipo de jornalismo online propôs, até agora, um desafio significativo à grande, mas frágil, mídia de notícias japonesa.

“O Japão simplesmente ainda não estava preparado,” disse o presidente e fundador do JanJan, Ken Takeuchi, ex-prefeito reformista e atualmente jornalista que inaugurou o site em 2003. “É um lugar difícil para se criar uma fonte alternativa de notícias.”

Enquanto a longa estagnação econômica japonesa gerou uma desestruturação lenta da ordem do pós-guerra do país, enfatizada por uma histórica mudança de governo no ano passado, um dos pilares desta ordem, a mídia jornalística, tem sido poupada até agora. O novo governo deu os primeiros passos rumo à abertura de alguns grupos de imprensa exclusivos que dominam a cobertura nos poderosos ministérios centrais de Tóquio [capital do Japão], mas ainda existe a necessidade de promover mudanças maiores.

Por várias razões, tanto culturais quanto econômicas, a revolução digital ainda está por causar o mesmo alvoroço na mídia de notícias aqui como o fez nos Estados Unidos e na maioria dos países desenvolvidos. O cenário da mídia ainda é dominado pelos mesmos gigantes que a têm monopolizado por décadas, como o Yomiuri Shimbun, o maior jornal do mundo, com circulação diária superior a 10 milhões.

Blogs pessoais prosperam no Japão, assim como sites de compra e salas de bate-papo do interesse de diferentes grupos, desde amantes de animais a nacionalistas raivosos. Mas sites dedicados a notícias têm encontrado apenas um pequeno espaço, e a maioria destes são controlados por grandes organizações jornalísticas, as quais geralmente os deixam em segundo plano.

Obviamente, há poucos blogs e sites de notícias alternativos em outros países, como o The Huffigton Post nos Estados Unidos. Os poucos sites que chamaram atenção, como o J-Cast News e o The Journal, não conseguiram atrair um grande número de leitores.

Sites de jornalismo popular receberam maior atenção aqui, principalmente por liderarem o desafio aos tabus da mídia e criticarem os grupos de imprensa japoneses. Mas eles estão longe do sucesso. Antes do Jan-Jan, um bem-financiado pioneiro da Coréia do Sul, o OhmyNews Japan, fechou há dois anos e o Tuskasa Net, em novembro. Ainda outro, o PJ News, hoje se resume a um único editor que não tem nem mesmo um escritório.

O Sr. Takeuchi e outros envolvidos na mídia online apontam um número de razões pelas quais os sites falharam, começando pela verba destinada à divulgação, que é pequena demais, até mesmo para sustentar o esqueleto de uma sala de redação.

Mas também nota-se que o Japão, com seu desprezo cultural por aqueles que se destacam da multidão, pode ser um território inóspito para o modelo leitor-repórter, disse o Sr. Takeuchi.

Considere o contraste com a vizinha Coréia do Sul. O OhmyNews revolucionou a mídia jornalística sul-coreana com reportagens escritas por leitores que desafiavam os grandes jornais conservadores, e que em 2002 ajudaram a eleger um presidente liberal, Roh Moo-hyun. O site tornou-se um poderoso instrumento mediático, com 62.700 leitores-repórteres e dois milhões de visitas diárias, em uma população com um terço do tamanho da japonesa de 127 milhões.

Mas quando o OhmyNews levou a sua fórmula de sucesso para Japão, ela fracassou.  Verbas destinadas à divulgação nunca apareceram, o site recebia meras 400.000 visitas por dia e somente 4.800 leitores inscreveram-se para escrever reportagens, disse o ex-editor, Masahiko Motoki.

O Sr. Motoki e outros dizem que um outro motivo para a resistência japonesa a sites alternativos é a relativa ausência de divisões políticas e sociais. Na politicamente polarizada Coréia do Sul, o OhmyNews prosperou atraindo leitores jovens e liberais.

“Apenas quando a sociedade ver a si mesma como tendo interesses conflitantes é que ela buscará novos pontos de vista e informações,” disse Toshinao Sasaki, autor de cerca de vinte e quatro livros sobre a internet no Japão.

Peritos em mídia dizem que o Japão ainda verá tal questionamento crítico de sua imprensa tradicional. Eles dizem que a maioria dos japoneses continua pelo menos aceitando passivamente as grandes redes jornalísticas e televisivas do país.

Ainda assim, tem sido possível notar crescentes sinais de que a indústria jornalística japonesa está à beira da mudança. O maior deles tem sido a lenta, mas constante, queda na assinatura de jornais, particularmente entre jovens japoneses.

A circulação do The Asahi Shimbun, por exemplo, segundo maior jornal do Japão e do mundo, decaiu em 3% na década passada para cerca de oito milhões, apenas.

Quando criou o JanJan sete anos atrás, o Sr. Takeuchi, 69 anos, disse que esperava remexer a principal corrente de imprensa japonesa e sua conformada cobertura do governo.

O JanJan, abreviação de Notícias Alternativas pela Justiça e Nova Cultura, rapidamente atraiu elogios por suas reportagens críticas sobre a caça de baleias e outros tópicos considerados fora dos limites pelas principais organizações jornalísticas japonesas. Contudo, o site quase não arrecadou o suficiente para pagar por suas operações. O “sopro da morte” veio com a recessão global, uma vez que as verbas para divulgação decaíram, disse o Sr. Takeuchi. Ele reabriu o site em maio como um blog limitado.

O Sr. Takeuchi disse que um de seus maiores desafios era manter a qualidade do conteúdo das notícias do site. A maioria dos artigos enviados por leitores tendiam a ser versões resumidas de reportagens de grandes empresas de mídia, acrescentadas da opinião dos leitores.

Ele também tinha dificuldade em contratar jornalistas experientes porque a maioria não queria trocar grandes companhias por uma iniciante desconhecida. Especialistas em mídia disseram que isso pode mudar, especialmente se grandes empresas de notícias começarem a recorrer a demissões ou a falir, como aconteceu nos Estados Unidos.

“O JanJan fracassou, mas haverão outros que tentarão fazer a mesma coisa,” disse Shin Mizukoshi, um professor de estudos de informação na Universidade de Tóquio. “O JanJan plantou a semente.”

Shiho Fukada

Traduzido por Laura Lammerhirt.

Para acessar a matéria original, clique aqui.

Imagem retirada daqui.

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