Suruis: Dominando a tecnologia para salvar a floresta – Parte 1
18/07/2010 - 19:01 | Editado por Cristieni CastilhosDer Spiegel – Hamburgo
HAMBURGO, Alemanha – Os suruis, uma tribo da floresta tropical brasileira, estão lutando para conter a destruição de sua própria terra-natal. Mas, ao invés de arcos e flechas, eles estão utilizando a Internet, o GPS e o Google Earth. O próximo passo é começar a comercializar créditos de carbono [certificados emitidos para um agente que reduziu sua emissão de gases do efeito estufa].
O cacique Almir Narayamoga Surui gira o globo a sua frente, passando por Copenhagen [capital da Dinamarca], Bristol [cidade no sudoeste da Inglaterra] e Washington [capital dos EUA]. Ele adora navegar pelo Google Earth, saltando de um continente para outro. Isso se tornou praticamente um vício. Eu pergunto a ele qual seu interesse em Bristol. “Eu não sei”, responde. “Estou apenas olhando”. A Terra virtual na frente dele continua girando e finalmente chega ao Brasil, e aqui o cacique de 35 anos de idade que nasceu no chão de uma cabana na floresta aproxima a imagem até chegar a um triângulo verde cercado de marrom, seu formato bem definido como se desenhado com o auxílio de uma régua.
“Esta é a nossa terra: 2.428 km² de floresta tropical”, ele diz. Quase três vezes a cidade de Nova Iorque, o polígono florestal é o lar de 1300 membros da tribo Surui, um dos milhares de grupos indígenas que habitam o Brasil. O território é chamado de Terra Indígena Sete de Setembro, em referência ao dia que o mundo dos brancos invadiu a terra dos Suruis: sete de setembro de 1969. Esse primeiro contato se mostrou devastador, reduzindo a população de 5.000 para apenas 250 através de uma devastação que combinou fome, dominação e, sobretudo, a catapora. Antes de a modernidade entrar em suas vidas, os suruis permaneceram confinados dentro de sua reserva, praticamente sem nunca ter deixado a floresta.
Quarenta e um anos depois, a região ao noroeste do Brasil é um subúrbio da cidade de Cacoal, na estrada BR-364, dentro do estado de Rondônia. O cacique é um homem baixo, robusto, com um olhar vivo em uma cabeça que repousa como uma pedra entre seus ombros. Na frente dele, está um pequeno notebook preto. Atrás dele, na parede, está pendurada uma flecha decorada com penas.
É daqui que ele trava a guerra contra o desmatamento de sua terra. As suas armas são a Internet, o Google Earth e o GPS. Ele fala sobre imagens de satélite, sobre milhões de árvores que ele pretende plantar e 16,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono que ele pretende vender no mercado global de emissões.
Os suruis serão em breve um dos primeiros povos indígenas a serem pagos para preservar a sua floresta. Eles estão sendo aconselhados por investidores, advogados e administradores. Mas a decisão virá deles mesmos, tomada em uma assembléia de 1300 indígenas. Almir Surui acredita que o seu povo precisa da modernidade para ajudá-los a manter seu tradicional jeito de viver e esse é o único jeito de salvar sua floresta, sua cultura e sua tribo. Mas, tendo em vista que isso é um experimento, o resultado é incerto – tanto para os suruis quanto para o resto do mundo.
Apenas no ano passado, 130.000 km² de floresta foram derrubados ou queimados, pelo menos 10.000 km² deles no Brasil. Esse deve ser o número mais baixo em décadas, mas ainda é muito. Vinte por cento da floresta tropical da Amazônia já desapareceu. A mesma quantidade foi danificada. Em uma escala puramente proporcional, as maiores porções devastadas da floresta estão no estado de Rondônia.
Em atrito com os madeireiros
A reserva Sete de Setembro sobreviveu como um polígonoverde no meio de fazendas, vilas e estradas. Sobreviveu porque os surui expulsaram os colonos e madeireiros sem distinção, com correntes de ferro barrando a passagem nas estradas, além de mudarem de lugar suas aldeias para se prevenirem melhor da invasão à sua reserva. Mas 2.428 km² é uma área muito ampla para que 1300 índios sejam capazes de a proteger constantemente. Os suruis perderam sete por cento de sua floresta mas salvaram os outros noventa e três. A área da reserva é o último território ainda florestado nessa região de Rondônia, na qual 4.000 pessoas ainda vivem da indústria madeireira.
“Mas deixe-nos começar pelo começo”, diz o cacique. “Vamos para Lapetanha”. Nós entramos na sua pick-up e passamos por postos de gasolina, depósitos de sucata e hotéis que alugam quartos por hora. Por fim, nós vimos os campos de soja, plantações de banana e vacas leiteiras pastando nos campos cheios de tocos de árvore carbonizados. “Tudo isso um dia fez parte da nossa terra”, diz ele modestamente e silenciosamente com um português suave.
O medo é tudo que restou. As pessoas de pé ao lado da estrada nos encaram quando passamos no carro de Almir e nos olham cada vez mais hostilmente conforme nos aproximamos da reserva. Muitos deles são madeireiros que moravam na reserva. Três anos atrás, os madeireiros e os donos de serrarias estavam oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares pelo cacique, que foi obrigado a fugir para os Estados Unidos.
Dois mundos
Leva mais ou menos uma hora para dirigir entre um mundo e outro. Em um deles, Almir Surui tem duas mulheres, uma em Cacoal e a outra em Porto Velho [capital de Rondônia], e também cinco filhos, uma casa com jardim e um cachorro salsicha. Nesse mundo, ele é algo como o Ministro das Relações Exteriores dos Índios da Amazônia. Ele já viajou para 26 países, esteve nas Nações Unidas em Nova Iorque, participando da Conferência Climática de Copenhagen, e teve um encontro com o Príncipe Charles em Londres. Al Gore pretende visitá-lo logo. Em dezembro, a revista brasileira Época o declarou como um dos 100 brasileiros mais influentes, junto com o jogador de futebol Kaká, a modelo Gisele Bündchen e o escritor Paulo Coelho. Ele é membro de duas comissões governamentais e nas próximas eleições vai concorrer a um assento no Congresso Nacional do país como membro do Partido Verde.
Seu outro mundo é a vila de Lapetanha, onde nasceu e foi eleito cacique aos 17 anos, visto que seu pai havia sido cacique antes dele e talvez também porque o povo tenha sentido que ele tem algo de especial. Almir foi o primeiro surui a ir para a faculdade. Ele estudou biologia em Goiânia, onde os colegas o ignoravam porque ele não falava, olhava ou se alimentava como eles. No mundo indígena, as pessoas comem larvas e só tiveram acesso à luz elétrica quatro anos atrás. Aqui ele pinta o rosto e o corpo com linhas e pontos durante os festivais religiosos.
Esse é o mundo que foi abalado pela modernidade há 41 anos, quando trabalhadores abriram um caminho pelo meio da floresta inaugurando a construção de uma estrada. Essa estrada trouxe junto colonos, gado, carros e telefones. Hoje, em muitos assentamentos você pode encontrar um freezer no qual os índios colocam o que caçaram com arco e flecha.
Juliane von Mittelstaedt
Tradução de Cristieni Castilhos
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Imagem retirada daqui



