1972: O Fim da Idade da Inocência

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19/07/2010 - 17:14 | Editado por Frederico Bertol

The Independent, Londres (trechos)

LONDRES, Reino-Unido – O passado é, sem dúvida, um lugar distante. Mas em 1972, quando os eventos do Domingo Sangrento ocorreram, o passado era outro planeta. Para os que ainda não tinham nascido, preparem-se para ficar chocados. Era uma época em que os astros de rock garanhões usavam maquiagem e saltos plataforma; (…) quando a União Nacional de Mineiros [o sindicato britânico de mineiros de carvão] poderia derrubar um governo; quando Israel era o mocinho; quando os estudantes recebiam incentivos financeiros e, mais tarde, empregos.

Tal era a ordem natural das coisas. Os conflitos na Irlanda do Norte estavam aos poucos se tornando parte da mentalidade britânica. Desde 1969, quando tropas britânicas foram enviadas para a região, os conflitos figuraram regularmente na imprensa e tomaram conta do discurso político. Mas foi apenas no decorrer dos anos 70, quando o Exército Republicano Irlandês [IRA – Irish Republican Army] levou sua campanha de violência para a Inglaterra, lançando bombas em alvos dentro de cidades como Birmingham [segunda maior cidade inglesa] e Guildford [sede administrativa da região sudeste], que a Irlanda do Norte se tornou uma rotina desgastante nas conversas do dia-a-dia.

O Domingo Sangrento, é claro, também deu uma visão mais ampla dos conflitos na Irlanda do Norte para quem vive na Inglaterra; até mesmo influenciou a cultura britânica. Em uma das respostas mais inesperadas para os acontecimentos daquele dia, Paul McCartney, então um ex-Beatle, lançou um single chamado “Give Ireland Back to the Irish [Devolvam a Irlanda para os irlandeses]”. Tais gestos eram importantes naquela ocasião, e a canção foi imediatamente banida pela BBC [emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido].

(…)

Mas olhar para esses pontos-chave de 1972 e relacioná-los com o resto da década, como muitos historiadores tem feito, é a meu ver esquecer o principal sobre esse ano. Não era apenas o começo dos anos 70 – uma década caracterizada pela disputa industrial, inflação em alta e desemprego crescente. Era também o último ano da década de 60.

Pense na moda. O traje que vinculamos aos anos 70 entrou certamente em evidência no decorrer da década. As gravatas eram grandes e os vestidos, curtos. Os sapatos plataforma ficavam desproporcionais e um tanto quanto ridículos debaixo das calças apertadas e brilhantes. Mas, em 1972, esse ainda não era o visual reinante. O visual mais popular, inclusive nos campi universitários, era composto por jeans rasgados, túnicas tie-dye e calças boca-de-sino. Era 1972, mas o verão de 1967 ainda não tinha se apagado. Dentro desses mesmos campi, o uso de drogas leves era comum.

Um conservador estava no posto de primeiro-ministro britânico e os mineiros estavam em greve, mas o cenário político que realmente mudaria a vida das pessoas e cujos efeitos podem ser sentidos ainda hoje foi herança do radicalismo dos anos 60. Ele estava tomando forma em pequenas e revolucionárias reuniões, passeatas e revistas underground que logo trariam o assunto da libertação das mulheres e dos gays para dentro das casas.

Em julho de 1972, a primeira passeata do Orgulho Gay partiu da Trafalgar Square em direção ao Hyde Park [locais públicos no centro de Londres]. Alguns manifestantes estavam vestindo cores berrantes, outros estavam travestidos de mulher. Esse e outros acontecimentos resultaram não apenas na criação do Gay News [jornal pró-libertação sexual], mas também numa sociedade na qual a igualdade dos gays seria considerada algo normal pelo qual lutar. Quem sabe, olhando pra trás, poder-se-ia desejar que a Frente de Libertação dos Gays tivesse enfatizado mais a necessidade de enxergarmos os gays como pessoas normais ao invés de ressaltar suas diferenças, como tais passeatas e estilos de roupa tenderam a fazer. Mas talvez os movimentos precisem chamar atenção.

Como Andy Beckett aponta em sua brilhante história dos anos 70, “Quando as Luzes se Apagaram”, o movimento feminista dos anos 70 era mais difícil de se identificar em termos de tempo e lugar: muitos grupos distintos estavam em atividade. Mas a edição de estréia do Spare Rib [revista feminista do Reino Unido] foi publicada em julho de 1972, outra revista – e uma das mais importantes – entre tantas numa imprensa underground aproveitando possivelmente seu último grande ano de saúde plena.

Mais uma vez, contudo, a história foi em parte reescrita. A revista Spare Rib não era puro radicalismo; como muitas nesse ano de contradições, ela estava se esforçando para ser radical, mas também se voltando para a convencionalidade. Ao lado dos artigos sobre as suffragettes [militantes feministas do Reino Unido] e sobre um grupo de mulheres em Londres “lutando por um acordo justo para faxineiras noturnas”, estava o título “Georgie é o melhor no sexo” [George Best, na época jogador do time de futebol Manchester United].

No cinema, a geração prodígio de diretores dos anos 70 estava começando a deixar sua marca. De fato, o clássico de Francis Ford Coppola, “O Poderoso Chefão”, foi o filme de maior bilheteria do ano. Um certo “Laranja Mecânica” apareceu no Warner West End Cinema [célebre cinema inglês] no mês de janeiro. O filme foi anunciado como sendo “a aventura de um jovem cujos principais interesses eram o estupro, a violência extrema e Beethoven”.

(…)

Embora esse viesse a ser o ano em que David Bowie conquistaria o mundo com seu álbum “Ziggy Stardust”  e com a estréia de seu personagem andrógino, o topo das paradas na época do Domingo Sangrento estava ocupado por “I’d Like to Teach the World to Sing [Eu Gostaria de Ensinar o Mundo a Cantar]” dos The New Seekers. Composta para uma propaganda da Coca-Cola, teve o verso “eu gostaria de comprar uma Coca para o mundo e fazer companhia a ele” alterado para que as estações de rádio tocassem a canção.

O Domingo Sangrento certamente dominava as manchetes; mas você precisava esperar até um determinado horário pelo boletim: notícias 24 horas não eram nem mesmo um sonho. Já se imaginava um quarto canal de televisão, mas ele levaria mais 10 anos para se materializar. Então havia apenas três canais – e nenhuma programação adulta durante o dia.

Naquele verão, jovens e velhos ficariam colados nas telas das TV quando 11 atletas israelenses foram massacrados nas Olimpíadas de Munique. Esse cruel acontecimento foi um entre muitos que nos forçaram a finalmente começar a levar a sério a questão da segurança.

(…)

Mas essa nostalgia pode ser atribuída a qualquer ano pertencente a uma outra época. O que faz 1972 especial vai além das memórias populares de um verão glorioso vivido ao som de Rod Stewart cantando “You Wear It Well”. O que faz esse ano especial é que ele marcou a fronteira entre os anos 60 – os anos de fartura, experimentação, sexo, drogas e política marcada pela excentricidade, idealismo e influência hippie – e os verdadeiros anos 70, os anos da inflação, desemprego, mudança de atitudes referente ao gênero sexual e à sexualidade, radicalização e as primeiras menções de palavras que muito depois virariam ponto-comum: terrorismo e terror.

Foi o ano de 1972, quem sabe tanto quanto qualquer ano da década de 60, que se mostrou revolucionário, otimista e igualitário. As notícias do Domingo Sangrento certamente contribuíram para o crescente sentimento anti-sistema entre os jovens e representaram um ponto de encontro político. Mas elas não dominaram o ano. Como poderiam? A verdadeira política nesse ano era a pessoal. E o que é pessoal não permite muitas interrupções externas.

David Lister

Tradução por Frederico Bertol

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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