Suruis: Dominando a tecnologia para salvar a floresta – Parte 2

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19/07/2010 - 23:56 | Editado por Cristieni Castilhos

Der Spiegel – Hamburgo (trechos)

Tecnologia e Tradição

Os jovens suruis, portanto, viram na Internet uma saída e juntaram-se à batalha contra o Banco Mundial e seu Projeto Planaforo de desenvolvimento, o qual pretendia construir estradas, represas e assentamentos em terra indígena, mas sem levar em consideração seus habitantes. Os índios bateram de frente com o Banco Mundial e venceram. Quando o cacique retornou para sua tribo, trouxe junto um computador e uma idéia: a única esperança de sobrevivência para os suruis seria combinar os dois mundos – o da tecnologia e o da tradição. Foi o amanhecer de uma nova era.

O pai de Almir ainda caça com arco e flecha, enquanto Almir agora tem um iPhone. Ele tem cinco diferentes contas de e-mail e 324 amigos no Facebook – um deles é o companheiro indígena Evo Morales, presidente boliviano.

Almir Surui, o índio da Floresta Amazônica, agora é famoso.

Tudo começou em 1997, o ano do Protocolo de Kyoto. Almir Surui tinha 22 anos quando estabeleceu um plano cinquentenário que era simples e ingênuo: os próprios suruis iriam curar as feridas que os madeireiros tinham aberto na floresta. Dentro de 50 anos, a sua floresta voltaria a ser imaculada. Almir acredita que essa é a única esperança de sobrevivência para a tribo, pois sempre houve suruis cooperando com a máfia madeireira, alguns para sair da pobreza, outros por pura ganância.

Um e-mail do coração da floresta

As palavras do cacique convenceram quase todos os suruis, que prontamente começaram a criar e plantar mudas. Gradualmente, a floresta voltou a ganhar vida Eles continuam plantando árvores até hoje.

Há um suíço vivendo entre os suruis: Thomas Pizer, da organização Aquaverde. Pizer conta como ele recebeu um e-mail de Almir seis anos atrás. A mensagem dizia: “Na sua página da Internet está dito que vocês se comprometem a reflorestar a Amazônia. Se isso for verdade, por favor nos ajude.” Eles deram aos suruis dinheiro suficiente para plantar 500 mudas. Eles plantaram 1900. “Nenhum outro povo indígena está fazendo tanto para ressuscitar suas florestas”, diz Pizer.

Um índio visita a sede do Google

Só durante a semana passada ele já flagrou madeireiros ilegais prestes a fugirem com três caminhões transportando madeira de mogno. Os caminhões pertenciam às autoridades do estado vizinho, Mato Grosso. “O prefeito está envolvido. Isso é normal por aqui”, diz Almir. Ele perdeu a confiança no governo brasileiro e no plano oficial de reduzir em 80 por cento o desmatamento até o ano de 2020. Almir Surui, o cacique da floresta tropical, agora acredita apenas no poder do conhecimento.

Por essa razão, há três anos ele entrou em contato com a empresa que possui o maior de todos os depósitos de conhecimento: Google. Usando um cocar de penas na cabeça, ele entrou na sede mundial da companhia, na Califórnia [estado dos EUA, situado na costa do Pacífico], exigindo uma reunião. Eles lhe concederam 30 minutos – e passaram três horas conversando com ele. Poucos meses depois, o Google veio a Lapetanha armado com laptops, telefones que funcionam via satélite, câmeras e projetores de vídeo. E os suruis fizeram sua primeira pesquisa sobre o mundo no Google: “desmatamento da Amazônia”.

Eles gravaram um vídeo para o YouTube, fizeram um site e aprenderam o significado de palavras como “blog”, “overlay” e “3D”. Eles até inventaram uma palavra para o Google na sua própria língua, o tupi: “ragogmakan”, que literalmente significa “mensageiro”, visto que o Google leva a mensagem e o projeto dos suruis ao mundo.

O cacique espera um dia digitalizar completamente a reserva. Eles já estão dando o primeiro passo: querem integrar ao Google um mapa da floresta feito por eles, em que as pessoas poderão pesquisar fotos, realizar um vôo virtual sobre a floresta e olhar vídeos dos anciões tribais falando sobre a sua tradição. Enquanto isso, em uma cabana construída sobre o chão da floresta com folhas de palmeira, os suruis vão se sentar na frente de computadores escaneando imagens de satélite em alta resolução, mostrando polegada por polegada da floresta de forma a detectar intrusos. Tais imagens em breve serão fornecidas pelo satélite sino-brasileiro, CBERS III.

Por enquanto, eles vão ter que se virar com as imagens de satélite do Google Earth. Apesar da baixa resolução, as fotos são boas o suficiente para permitir que se identificassem dezenas de locais onde ladrões de madeira e garimpeiros tem penetrado. Isso é uma amostra do que está por vir no futuro previsto para outubro, quando os suruis se engajarão no comércio de emissões globais.

Almir Surui ouviu pela primeira vez o termo REDD – ou “rédi”, como ele pronuncia – há três anos. A sigla significa Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação da Floresta. Ele descobriu que as florestas prendem o dióxido de carbono, e as companhias ao redor do mundo estão dispostas a pagar muito dinheiro para ter árvores que absorvam dióxido de carbono em seu nome. Eles não pagam pela mera existência de uma floresta, mas sim para evitar sua destruição.

A Floresta Pode Desaparecer em Pouco Tempo

Logo, os suruis se encarregaram de fazer uma simulação do que aconteceria se eles não protegessem a reserva: o estado“negócio de sempre”. Para os suruis, o “negócio de sempre” significaria que 30 por cento da sua floresta desapareceria no período de 50 anos. Até o fim do século ela poderia deixar de existir.

Balançando na rede enquanto rói um pedaço de costela, Almir Surui larga uma estimativa enorme: US$ 120 milhões [R$211.980.000]. Esse é o preço de proteger suas florestas por 44 anos e evitar que 16.475.469 toneladas de dióxido de carbono entrem na atmosfera. Os potenciais compradores de tais “créditos” são empresas que desejam voluntariamente comercializar as emissões, mas também bancos de investimento, corretoras e até mesmo governos. A Califórnia seria um dos candidatos, pois esse estado norte-americano se comprometeu a reduzir suas emissões de CO2.
O chefe indígena está bem ciente das críticas ao projeto do REDD. Críticos dizem que ele é muito complicado, que a Mãe Natureza não deve ser orientada pela lógica dos mercados financeiros, que muito dinheiro é perdido nas taxas de transação. Além disso, não é certo que o REDD vá realmente ajudar a proteger o meio-ambiente.

Não obstante, se tudo correr como planejado, o REDD poderia devolver a dignidade perdida para alguns dos povos indígenas do Brasil e fazer com que o mundo os leve a sério. Os suruis poderiam se tornar um modelo de como é possível para os ameríndios serem sustentados pela floresta e viverem em harmonia com ela.

O Plano Empresarial dos Suruis

Os suruis querem usar uma parte do seu dinheiro para construir novos lares para seu povo e plantar ainda mais árvores. Eles gostariam também de um hospital, uma escola melhor, computadores para todos e uma aposentadoria para os mais velhos e os enfermos – um mini-estado de bem-estar social para os suruis. O restante dos milhões que eles esperam ganhar através do comércio de emissões seria aplicado em um fundo com o qual eles comprariam empresas e trariam emprego para a região, algo que também beneficiaria seus inimigos, os madeireiros ilegais.

Os jovens esperam que o comércio de emissões traga o futuro para sua tribo. Já os anciãos esperam que ele traga a tradição de volta para a aldeia.

Almir sente que será um delicado ponto de equilíbrio. Ele transformou os suruis em índios high-tech, mas, ao mesmo tempo quer que eles preservem sua cultura. Ele diz que às vezes se desespera e teme que os dois lados sejam mutuamente exclusivos. “Mas qual é a alternativa?” Ele dá de ombros. Não há outra.

Uma Floresta Tropical no Deserto?

Nessa noite, o velho e o novo mundo podem ser vistos lado a lado na aldeia. Em uma das cabanas, um laptop é colocado em cima de uma cadeira. Ele mostra um vídeo filmado durante a festa Mapimai, a celebração da criação do mundo. Eles se pintam e depois disputam quem bebe mais chicha, uma cerveja feita de milho. Em seguida, é a vez do vídeo de Almir fazendo seu discurso na Cúpula de Copenhagen.

O chefe se senta ao lado deles, perdido em pensamentos. As memórias de Copenhagen são de tempos passados. Ele já está bolando seu próximo plano. Uma empresa de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, o chamou e perguntou se seria possível fazer uma floresta tropical no meio do deserto. Almir sabe que Abu Dhabi é um país feito de areia. Mas ao longo do Golfo Pérsico eles já construíram o edifício mais alto do mundo, uma ilha em forma de palmeira e uma pista de esqui. Então, por que não uma floresta tropical?

Almir disse aos xeques que precisaria de 15 milhões de dólares – e, claro, um alojamento próximo à floresta – para completar o projeto. Almir gerenciaria a empresa, e o dinheiro ganho com os ingressos seria utilizado para comprar de volta as terras que cercam a sua reserva, terra que pertencia a eles.

Almir Surui sorri. Já se passaram treze anos do seu plano cinquentenário, e ele certamente não está fora dos eixos. Na verdade, ele está apenas acertando o passo.

Juliane von Mittelstaedt

Tradução por Cristieni Castilhos

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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