Iraque: Curdistão é negócio
22/07/2010 - 17:12 | Editado por Hânder LealThe Guardian – Londres
ERBIL, Iraque – Na semana passada, mais de 600 delegados de todo o mundo foram a Londres para uma conferência sobre oportunidades de investimento na região iraquiana do Curdistão.
Enquanto o resto do Iraque continua cercado por disputas políticas, ataques terroristas e protestos violentos contra a falta de eletricidade, o Curdistão parece cada vez mais um Estado independente. Essa foi a mensagem que ficou nas entrelinhas da conferência – que as oportunidades de negócios no Curdistão também são oportunidades para exercer alguma função na construção de uma nação.
E que maneira melhor para começar do que com petróleo, a base para a fundação de um futuro Estado curdo. Ashti Hawrami – o experiente ministro regional curdo do petróleo, que continua a desbravar o setor energético do Curdistão apesar de fortes desafios vindos de Bagdá [capital do Iraque] e de uma campanha de difamação que falhou – fez uma apresentação que expôs exatamente o que estava em jogo.
Antes de 2003, o Curdistão importava petróleo dos países vizinhos a preços altamente inflacionados. Agora as coisas mudaram. Foram concedidos 37 contratos a empresas estrangeiras, e a região se tornou uma rede exportadora de petróleo. As exportações de petróleo estão atualmente interrompidas, mas é esperado que sejam reiniciadas nos próximos meses.
Mais especificamente, o Curdistão espera exportar pelo menos 100.000 barris por dia, e essa estimativa deve subir para 200.000 até o final do ano. Até 2014, o Curdistão deverá estar exportando pelo menos 1 milhão de barris por dia, o que significa um incremento de 50% na renda não só dos curdos, mas do Iraque inteiro – um argumento que Hawrami insistiu em deixar claro.
Em meio a toda má fama que a mídia criou das companhias de petróleo, o que não é notado são os projetos focados na comunidade que podem ser implementados em áreas que necessitam desesperadamente deles. Só no Curdistão, uma companhia se comprometeu com 2 bilhões de euros [≈ 4,6 bilhões de reais] não-reembolsáveis para projetos sociais e infraestrutura local, incluindo a construção de hospitais e estradas.
Uma política de energia eficaz também levará ao aumento de eletricidade. Antes da chegada de Hawrami, em 2006, o Curdistão tinha uma média de somente 2 a 4 horas de eletricidade. Hoje, a região conta com mais de 18 horas nas maiores cidades e uma média de 12-18 horas por toda a região.
O Curdistão também atraiu mais de 12 bilhões de euros [≈ 27,5 bilhões de reais] em investimentos não relacionados ao petróleo, provindos de investidores tanto locais quanto estrangeiros nos últimos 3 anos e meio, principalmente nos setores imobiliário, agrícola e de transações bancárias. Isso se deve principalmente à lei liberal de investimento estrangeiro, ratificada em 2006, com incentivos para investidores estrangeiros, incluindo posse de terra, um intervalo de 10 anos sem pagar impostos e repatriação dos lucros – termos mais favoráveis do que aqueles oferecidos em Bagdá.
Evidentemente, o Curdistão ainda sofre de corrupção e burocracia, e ainda é uma região que opera em um cenário de incerteza violenta e volatilidade. Está a menos de três horas de distância de Mosul, a província mais perigosa do Iraque. Entretanto, Karim Sinjari, que governou os serviços de inteligência da região por mais de uma década até se tornar ministro do interior, chamou atenção para o isolamento curdo contra terroristas que ainda tentam penetrar as fronteiras seguras da região. Não houve nenhum incidente terrorista desde 2007.
Ameaças de segurança recentes incluem bombardeios iranianos e turcos nas fronteiras e incursões, mas estes têm acontecido já há algum tempo; eles fazem parte de uma política de fronteira mais abrangente que os Estados vizinhos exercem por causa do desenvolvimento político e econômico do Iraque. Os incidentes nas fronteiras não foram nem mencionados por locutores ou investidores. Sendo assim, o Curdistão ainda é uma parte do Iraque e, enquanto a incerteza e a instabilidade prevalecerem no Iraque árabe, isso trará, quase certamente, algum grau de risco político e/ou de segurança para a perspectiva de investimento na região.
Além do mais, investidores que ainda não entraram no mercado também podem querer esperar até que as disputas entre Erbil [capital do Curdistão e quarta maior cidade do Iraque] e Bagdá sejam resolvidas, particularmente aquelas referentes a petróleo, para que não percam o contato com a capital do Iraque. Isso, porém, é uma questão que vem à tona somente se alguém estiver mais inclinado a investir em Bagdá. Como observou um investidor, isso envolveria esperar um longo tempo. Parece que houve na conferência um senso de urgência generalizado entre os investidores, que poderiam estar cogitando a hipótese de desistir de Bagdá e migrar para o “outro” Iraque.
Tradução de Laura Lammerhirt
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