Somália: um enclave de estabilidade na Somalilândia

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24/07/2010 - 15:53 | Editado por Gustavo Müller

The New York Times – Nova Iorque

BURAO, Somália – Os comícios normalmente começam cedo pela manhã, antes que o brilho do sol ofusque os olhos.

Às oito horas, poucos dias atrás, milhares de pessoas se amontoaram na praça da cidade de areia de Burao [segunda maior cidade da Somalilândia, situada no centro do território], com meninos subindo nas árvores para dar uma olhada nos políticos.

“Nós vamos acabar com a corrupção!” bradava um dos políticos, segurando vários microfones ao mesmo tempo. “Nós vamos recuperar a dignidade do povo!”

Os meninos festejaram intensamente. Milicianos franzinos ergueram os punhos. As mensagens dos políticos eram pouco originais. Mas nesse canto da África, um comício político livre e aberto – liderado nada menos que pelos líderes da oposição que podem realmente vencer – é uma exceção aparentemente digna de comemoração.

A multidão nesse dia ajudou a revelar uma verdade incomum: um dos países mais democráticos do Chifre da África [região nordeste do continente que inclui Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti] não é, na verdade, um país. Trata-se da Somalilândia, no canto noroeste da Somália, que desde a desintegração do Estado somali em 1991, enfrenta um desafio quixotesco em busca de reconhecimento como uma nação separada.

Embora grande parte da Somália seja assolada com violência incessante, essa pouco conhecida peça do quebra-cabeça somali é pacífica e organizada o suficiente para promover as eleições nacionais esta semana, com mais de um milhão de eleitores registrados. As campanhas são cheias de emoção, mas justas, afirmam os poucos observadores ocidentais daqui. As ruas estão cheia de velhos Toyotas tocando slogans a partir dos megafones em seus tetos.

Os habitantes da Somalilândia já organizaram três eleições pacíficas. A última eleição presidencial, em 2003, foi decidida por uma pequeníssima margem, cerca de 80 votos no momento da contagem, mas não houve violência. Cada eleição bem sucedida alimenta a esperança que algum dia o mundo irá recompensar a Somalilândia com reconhecimento por esculpir um funcional e democrático espaço dentro de um dos mais caóticos países do mundo.

Porém esta eleição presidencial, marcada para sábado [26 de junho], será um dos maiores testes para a nascente democracia da Somalilândia.

O governo parece impopular, em parte porque a Somalilândia ainda é extremamente pobre, um lugar onde mesmo nas grandes cidades, como Burao ou a capital Hargeisa, inúmeras pessoas vivem em barracos de papelão e tambores de óleo achatados. A maioria dos observadores independentes prevê que o partido da oposição, Kulmiye, que significa algo como “aquele que une as pessoas”, receberá a maioria dos votos.

Mas isso não significa necessariamente que a oposição irá ganhar.

Em muitos casos na África – Etiópia em 2005, Quênia em 2007 e Zimbábue em 2008 – justamente quando a oposição parece ter tudo para ganhar as eleições, o governo parece mexer nos resultados, mantendo-se no poder de maneira forçada e, muitas vezes, provocando tumultos generalizados durante o processo.

“Provavelmente não haverá muitos problemas com a votação em si, mas nos dias seguintes”, afirma Roble Mohamed, ex-diretor-chefe de um dos maiores web sites da Somalilândia. “Essa é a questão.”

Muitas pessoas aqui se preocupam que se o partido do governo da Somalilândia, o Partido Democrático dos Povos Unidos [UDUB - Ururka Dimuqraadiga Ummadda Bahawday], tentar se manter no poder de forma ilegítima, a população bem armada (aqui ainda é a Somália, apesar de tudo) vai se revoltar e as quase duas décadas de paz podem desaparecer em uma nuvem de pólvora.

“Eu sei que isso acontece na África, mas isso não vai acontecer na Somália”, prometeu Said Moge Adani, porta-voz do governo da Somalilândia. “Se perdermos, vamos passar o poder. O mais importante é a paz.”

Fáceis de anunciar, mas raramente feitas. Transferências pacíficas de poder são raridade nesta vizinhança. Em abril, o Sudão organizou suas primeiras eleições em mais de 20 anos (a última transição fora um golpe), mas a votação foi considerada superficial devido à intimidação generalizada e à retirada de vários líderes dos partidos da oposição da corrida presidencial.

As eleições do mês passado na Etiópia, nas quais o partido governista e seus aliados ganharam mais de 99% das cadeiras no Parlamento, foram manchadas por aquilo que os grupos de Direitos Humanos chamaram de campanha de repressão do governo, incluindo a manipulação da ajuda alimentar dos Estados Unidos para deixar a oposição faminta.

E há também a pequena Eritreia, no Mar Vermelho, que não realiza uma eleição presidencial desde o início dos anos noventa, quando conquistou a independência. E o Djibuti, sede de uma grande base militar estadunidense, onde o presidente recentemente forçou uma mudança constitucional para poder reeleger-se.

O centro e o sul da Somália, onde um governo de transição muito fraco tem lutado contra insurgentes islâmicos radicais, são tão perigosos que os habitantes enfrentam retaliações de insurgentes por acompanhar a Copa do Mundo. Imagine organizar uma eleição.

Assim, nessa região instável, a Somalilândia mostrou ser possível sustentar uma democracia popular em um lugar pobre e cheio de conflitos, recebendo muito pouca ajuda. Enquanto o governo do restante da Somália, que mal controla alguns territórios, recebe milhões de dólares em apoio direto das Nações Unidas e dos Estados Unidos, o governo da Somalilândia “não ganha um centavo”, afirma o senhor Said.

Como a Somalilândia não é reconhecida enquanto país independente, é muito difícil para o governo daqui fazer empréstimos internacionais, mesmo que tenha se transformado em um modelo de resolução de conflitos e construção de instituições democráticas – palavras de ordem para doadores ocidentais.

Em muitos aspectos, a Somalilândia já constitui um país, com uma moeda, exército e marinhas próprios, além de fronteiras e identidade nacional, como se percebe nas inúmeras camisetas e bandeiras em todos os lugares que se olha.

Parte disso provém das distintas histórias coloniais. A Somalilândia foi administrada, de maneira relativamente indireta, pelos britânicos enquanto o resto da Somália foi colonizado pelos italianos que montaram uma administração europeia. A administração italiana suplantou os lideres locais, o que pode ser a razão pela qual grande parte da Somália mergulhou num caos caracterizado pela luta entre os clãs a partir de 1991, enquanto a Somalilândia conseguiu conciliar os seus.

Os clãs não são a questão predominante nas eleições. Os três candidatos presidenciais (o código eleitoral da Somalilândia determina que apenas três partidos podem competir e eles se revezam na campanha a cada dia) são de diferentes clãs ou subclãs. Ainda assim, muitos eleitores parecem não se importar.

Em meio a quilômetros de arbustos, duas cabanas separadas por uma distância de 30 metros, uma com uma bandeira verde e amarela do Kulmiye tremulando num mastro de madeira, e a outra com uma sólida bandeira do UDUB.

Haboon Roble, um tímido garoto de 20 anos, contou que gostava do UDUB. “Eles são bons, eles sustentam a casa.”

Mas a cerca de cem metros dali, seu tio, Abdi Rahman Roble, balançou a cabeça.  “Este governo não fez nada pelos agricultores”, queixou-se. “Nós não conseguimos sequer folhas de plástico para recolher a água da chuva.”

Ele disse que está votando no Kulmiye. “Mas eu não falo pra ninguém como votar”, disse Rahman Abdi. “É a escolha deles.”

E como os outros adultos da família, ele mostrou com orgulho o seu novo e plastificado título de eleitor que normalmente mantém escondido em um lugar especial na sua cabana, junto com outros objetos de valor.

Jeffrey Gettleman

Tradução de Gustavo Müller

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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