Desenho animado para gente grande
25/07/2010 - 23:57 | Editado por Cristieni CastilhosLa Semana – Bogotá
BOGOTÁ, Colômbia – Durante muito tempo os desenhos animados foram vistos na Colômbia como uma forma de entretenimento para as crianças. Eram as charges nos jornais as encarregadas de dizer, com desenhos e humor, essas verdades tão dolorosas quanto necessárias que não encontravam espaço nas páginas editoriais. Hoje, aos chargistas dos jornais impressos, ainda em exercício, se somam novos desenhistas que estão cumprindo essa mesma tarefa, mas recorrendo à tela no lugar do papel.
Dessa nova geração se destacam três projetos que apostaram nos desenhos animados como linguagem para expressar uma posição crítica. Dois deles se apóiam ainda no humor e são obra de jovens realizadores: “El pequeño tirano” (O pequeno tirano) e “La isla presidencial” (A ilha presidencial). O terceiro apostou no cinema: o longa-metragem “Pequeñas voces” (Pequenas vozes), do diretor colombiano Jairo Carillo. Os três são feitos à mão e não tem problemas em colocar o dedo nas feridas quando necessário.
Encabeça a lista El pequeño tirano, desenho animado que surgiu na Internet há dois anos logo após as marchas de 4 de fevereiro e de 16 de março de 2008 [duas das maiores manifestações de cidadãos do país em repúdio aos sequestros praticados pelas FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] em reação à polarização que elas geraram. Seus protagonistas são dois pequenos irmãos gêmeos: um de ultra direita, el Tirano Diestro (o Tirano Destro), e outro de extrema esquerda, el Tirano Zurdo (o Tirano Canhoto). Em histórias que não passam de três minutos, ambas as crianças questionam os detalhes de incidentes como o escândalo do Agro Ingreso Seguro [programa de subsídios a agricultores colombianos], as escutas telefônicas ou as diferenças com a Venezuela.
Seus criadores são Santiago Rocha, Simon Wilches e Santiago Rivas. Para Wilches, a animação tem várias vantagens com relação aos outros gêneros. Uma delas é a que permite se livrar dos preconceitos que se atribuem aos atores de carne e osso. “Com as pessoas se corre o risco de que a mensagem se perca nas personalidades dos atores. As pessoas se prendem à imagem dos atores e não dão bola para a mensagem”. Ele também menciona o componente da ficção, fator que joga a favor da mensagem. “Além disso, o público cria um vínculo especial com o protagonista, pois mesmo que seja uma besta teimosa e cinza, como no nosso caso, ela é fictícia e só por isso é adorável”.
Eles enfatizam que a animação permite moldar a personalidade do protagonista. No El Pequeño Tirano são dois meninos que, como toda criança, sempre dizem a verdade. Como diz Rocha, “é mais fácil que coisas tão sinceras sejam ditas por uma criança. Para um adulto, uma criança tem permissão para dizer qualquer besteira e inclusive se dá risada”. Ter duas crianças como protagonistas, além disso, conduz a uma segunda intenção. “É uma forma de dizer que a política aqui ainda usa fraldas. Estamos na infância da cidadania. Temos muito a aprender”.
Junto com a política, o outro ingrediente da proposta dos Tiranos é o humor, sarcástico e inteligente. Eles o consideram como catalisador das mensagens que querem transmitir. “É uma ferramenta para enviar mensagens; produz endorfina que faz com que as pessoas vejam as coisas com mais simpatia”, assegura Santiago Rivas, para quem o humor tem papel central na política: “Na Inglaterra não acontece nada porque os humoristas estão ali, o tempo inteiro vigiando, servem como um filtro entre as pessoas e os políticos”.
Para poder ser um filtro efetivo, eles querem que as pessoas se relacionem com os personagens. Sobretudo querem que a produção saia das telas e esteja nas ruas, ao alcance das pessoas, porque parte de sua proposta é, com humor e desenhos, fazer com que aqueles que o assistam aprendam a não aceitar tudo que acontece. “Queremos chegar às pessoas que não tem acesso à Internet, que não conhecem os seus direitos e por isso não são críticos”. Eles tem, é claro, que ser imparciais, não tomam partido, esse é um dos segredos de sua aceitação. “Defendemos conceitos mais do que, pessoas. Isso nos deu uma aceitação maior”.
Também em reação a um episodio memorável, neste caso o “por qué no te callas” do Rei da Espanha se dirigindo a Hugo Chávez, surgiu La isla presidencial, uma série animada em que os presidentes ibero-americanos tem de conviver em uma ilha deserta depois do naufrágio de um cruzeiro fretado por Lula. Seu sucesso se mede por mais de três milhões de visualizações no YouTube dos três capítulos que foram feitos até agora. “Quando vimos o Rei silenciando Chávez tivemos o “clic”. Ali nos demos conta de que seria muito divertido ver todos esses personagens desamparados, sobrevivendo como na série “Lost”, explica Juan Andrés Ravell, um dos criadores.
Por trás de La isla está Ravell junto com Oswaldo Graziani e Elio Casale, os três de nacionalidade venezuelana. Eles são responsáveis pelo roteiro, enquanto que na Argentina uma equipe de animadores se encarrega da realização. Ravell crê que o êxito de La isla se deve a três fatores: primeiro, “os presidentes que temos agora são pitorescos e caricaturescos”. Segundo, graças a Internet, agora é mais fácil ficar informado do que acontece nos países vizinhos. E terceiro, as facilidades que a Internet contempla para difundir um produto como esse. “Adoro a Internet, pois há uma relação direta com a audiência; é o meio natural para esse tipo de conteúdo”.
Fechando a lista está Pequeñas voces, um longa-metragem animado em que o humor e a ficção são subsituídos pelo drama real de quatro crianças, vítimas do conflito, que quiseram narrar e desenhar sua história de vida. No filme, os relatos, na voz dos protagonistas, são recriados em uma animação baseada também nos desenhos feito pelos menores. Seu diretor, Jairo Carrillo, após trabalhar vários anos com Harold Trompetero [cineasta colombiano], se apoderou desse projeto que conseguiu o apoio do Fundo de Desenvolvimento Cinematográfico e de outras entidades e festivais do exterior, entre eles o do Tribeca Film Festival, de Robert De Niro.
Para a realização desse projeto foi necessário antes entrevistar 120 crianças com histórias ligadas ao conflito entre facções do narcotráfico e que sofreram deslocamento forçado. Daí saíram as quatro histórias que o filme apresenta. Elas vão desde o menino recrutado por um grupo ilegal até o que foi vítima de uma explosão, passando por uma história cujo protagonista é recrutado à força e sente uma profunda tristeza ao se despedir de seus animais de estimação. “Queremos mostrar como as crianças enxergam o conflito, utilizando os seus diálogos e suas experiências. Que fique claro que eles não escolheram os seus destinos nem o grupo ilegal para o qual tiveram de militar”, afirma Carrillo, que agora está planejando enviar o filme a festivais europeus. Logo virá a estréia na Colômbia no começo de 2011, possivelmente em 3D, o que os converteria no primeiro filme colombiano a estrear com esse formato.
Histórias reais, mas com uma roupagem de animação e em alguns casos com o ingrediente do humor, fazem parte dessa proposta que está abrindo caminho sobretudo entre o público jovem. Seu segredo é colocar em evidência situações complexas e personagens engraçados, com uma linguagem ao alcance de todos – a dos desenhos animados.
Tradução de Cristieni Castilhos
Acesse o original aqui
Imagem retirada daqui



