Argentina: O fenômeno político da juventude

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29/07/2010 - 16:12 | Editado por Cristieni Castilhos

Página 12 – Buenos Aires

BUENOS AIRES, Argentina – A juventude, composta pela faixa etária que vai desde a puberdade até a fase adulta, é um fenômeno da segunda metade do século XX. Sua emergência nos anos do pós-guerra se explica por uma combinação de fatores. O primeiro, de caráter material, tem a ver com as mudanças na economia, sobretudo a expansão do setor de serviços, que começou a demandar uma maior quantidade de profissionais e técnicos. Em um contexto de prosperidade, muitas famílias estimularam seus filhos a prolongar os estudos. A expansão universitária criou uma enorme massa de jovens que compartilham suas experiências e seus sonhos em espaços comuns de socialização: as sedes das universidades, os campus e suas extensões (os bares). Mais educados e conscientes que seus pais, tinham tempo e recursos para pensar e agir.

Mas, além disso, o pleno emprego – que durante duas décadas foi vivido na Europa e nos Estados Unidos, mas também, em menor medida, nos países de desenvolvimento médio como Argentina e Chile – permitiu que inclusive aqueles jovens que passavam sem muita demora da adolescência para o mercado de trabalho tivessem recursos para sustentar a si próprios. Já não necessitavam da família para sobreviver.

E, além disso, o mundo estava mudando a uma velocidade nunca antes vista. Isso criou uma separação entre o presente e o passado, um tipo de descontinuidade histórica, que enfraqueceu o valor da experiência, incapaz de lidar com fenômenos completamente novos. A sabedoria dos anciões perdeu boa parte de seu peso simbólico, menos pela maldade dos novos jovens que pelas transformações estruturais na economia e na sociedade, abrindo um abismo geracional. As aceleradíssimas mudanças tecnológicas deram à juventude uma vantagem sobre os adultos. Pela primeira vez na história, os jovens sabiam coisas que seus pais não sabiam. Um exemplo simples é o do pai que pede a seu filho que o ajude com o computador. Não é difícil imaginar o impacto dessa nova realidade na autoconfiança juvenil.

Complementarmente e como reflexo dessas mudanças, a juventude protagonizou o que Eric Hobsbawn [historiador] definiu como uma “revolução cultural”. A emergência da juventude como um grupo social não somente autônomo, mas também dotado de recursos, converteu os jovens no centro do mercado de consumo do capitalismo, cujo paradigma foi o rock: as vendas de discos nos Estados Unidos passaram de 277 milhões em 1955 para 2 bilhões em 1973 (dados de Hobsbawn). E também houve outro reflexos: o auge do turismo juvenil (nasce o Lonely Planet [a maior publicadora mundial de guias para viajantes] e a cultura mochileira) e das drogas (como aponta Hobsbawn, o fato de a droga preferida pelos jovens ocidentais, a maconha, ser menos danosa do que as drogas de seus pais, o álcool e o tabaco, fez com que fumar passasse a ser não somente um ato de desafio, mas também de superioridade). E o grande símbolo da época, o herói que vive intensamente e morre jovem: o precursor é James Dean [ator estadunidense] e logo há milhares de exemplos, desde Janis Joplin [cantora estadunidense] e Brian Jones [um dos fundadores da banda inglesa Rolling Stones] até Che Guevara [revolucionário argentino] ou Rodrigo [cantor argentino que morreu aos 27 anos, vítima de um acidente de carro].

Nessas condições, não seria de se estranhar que os jovens se convertessem nos protagonistas políticos, como aconteceu no maio francês de 1968, nas mobilizações anti-Vietnã nos Estados Unidos em 1967 e no “outono quente italiano” de 1969. E também na Argentina, no Cordobazo [importante movimento de protesto] protagonizado pelos estudantes universitários. Em todos esses casos, a juventude foi um ator político central, mas de duração fugaz e mais reativo do que objetivo, o qual se vincula com seu estado natural – a juventude é uma etapa transitória por definição – e com o espírito subjetivista, quase emocional, de seus lemas.

Na Argentina do anos 70, o peronismo montonero e as guerrilhas foram um fenômeno mais duradouro. Mas a intenção deste texto não é desenvolver o tema, que excede amplamente ao seu autor, mas também marcar algumas diferenças da juventude atual e especular sobre a relação que ela estabeleceu com o kirchnerismo [em referência a Néstor e Cristina Kirchner].

Em primeiro lugar, notemos que hoje a juventude de classe média argentina não é muito diferente da encontrada no primeiro mundo. Trata-se de jovens que estudam muitos anos e que em alguns casos prolongam sua carreira universitária no exterior. Emancipam-se tardiamente e se casam (quando o fazem) depois dos 30; demoram a ter – poucos – filhos. Mas essa é só uma parte da juventude. Em paralelo, os setores mais pobres desenvolvem um ciclo de vida curto, em que todas as etapas se aceleram: a passagem da infância para a vida adulta é veloz pela necessidade de gerar prontamente uma renda, cedo se emancipam, os filhos vem rápido e em grande quantidade, e a morte os alcança mais cedo, como resultado dos déficits alimentares e sanitários. Isso se comprova ao comparar dados de expectativa de vida e taxa de fecundiade entre províncias: uma pessoa do Chaco [província no norte da Argentina] vive, em média, cinco anos menos do que outra da capital.

Do ponto de vista cultural, os jovens de hoje não entram em conflito com os adultos como acontecia no passado. A juventude dos anos 60 e 70 era uma juventude que se afirmava contra os maiores, que eram os que não entendiam, os que bloqueavam as oportunidades e os que dominavam o planeta (o mundo do pós-guerra era uma gerontocracia [governo dos velhos],  comprovada pelo fato de que quase todos os grandes líderes da época eram velhos: Churchill [Reino-Unido], De Gaulle [França], Stalin [União Soviética], Perón [Argentina], Gandhi [Índia]). As coisas hoje são diferentes. Como aponta o Informe sobre Juventude no Mercosul do PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento], os jovens de hoje chegam a um “pacto familiar” mediante negociação com seus pais.

E isso, somado aos baixos salários e ao auge do “trabalho-lixo” [trabalho em condições precárias e mal-remunerado] , explica o atraso da emancipação (no sentido da formação de uma família própria) entre os jovens de classe média. A comodidade e a relativa liberdade que se respira no ambiente familiar., junto com as dificuldades do mercado de trabalho, prolongam a permanência no ninho, aquecido e com a geladeira cheia.

Agora, como se situa o kirchnerismo diante da juventude? No início, ele pareceu prestar pouca atenção aos jovens, concentrado em um mito fundador que alude à juventude, porém à juventude dos ano 70.

Mas o tempo produziu um fenômeno novo: a emergência de uma militância juvenil kirchnerista, provavelmente um subproduto da progressiva transformação do kirchnerismo em uma “minoria dedicada”, um setor da sociedade quantitativamente minoritário, mas coeso, com uma liderança e um programa, em boa medida resultado de iniciativas como a lei das mídias e a Pensão Universal por Filho [Asignácion Universal por Hijo]

Em todo caso, existem hoje grupos de jovens militantes kirchneristas. Se trata, é claro, de grupos pequenos, majoritariamente de classe média, irrelevantes do ponto de vista eleitoral, mas ativos e influentes nos meios e nas novas formas de comunicação, como as redes sociais e os blogs. Existem, por exemplo, alguns blogs kirchneristas muito bons. Atribuí-los a uma simples manobra oficial é absurdo: mesmo que o governo os tenha apoiado financeiramente, esse apoio veio depois e não antes de sua criação. E, em todo caso, existem outros partidos, que também levantam recursos e não hesitan em utilizá-los, mas carecem desse tipo de militância: onde estão os blogs do radicalismo? Onde estão os do PRO [Proposta Republicana]? Alguém conhece um blog que defenda as idéias de De Narváez [político, membro do PRO]? Talvez tenhamos que voltar aos primeiros anos do alfonsinismo [em referência a Alfonsín, ex-presidente argentino] para encontrar um fenômeno similar, ainda que aquele momento provavelmente tenha sido mais massivo e ainda que tenha uma expressão universitária (a Franja Morada) e partidária (a Junta Coordenadora) mais definidas.

Minha tese, para concluir,é que o kirchnerismo descuida das políticas especificamente orientadas às “duas juventudes”, seus problemas e necessidades. Há alguns exemplos desordenados. Nos setores mais desfavorecidos, de ciclo de vida curto, sobressai a ausência de políticas para enfrentar o drama da gravidez na adolescência, que alimenta os mecanismos de transmissão intergeracional da pobreza (o principal avanço nesse tema foi a lei de saúde reprodutiva sancionada na etapa duhalista [período em que Duhalde foi presidente da Argentina, entre janeiro de 2002 e março de 2003], mas é insuficiente e encontra graves problemas de aplicação; o fato de o governo se negar a falar da legalização do aborto impõe um limite difícil de superar). Outras políticas possíveis são aquelas que procuram reduzir a deserção escolar das mães adolescentes e jovens, através, por exemplo, de bolsas especificamente dirigidas a elas. Ou medidas que procurem aproximar a universidade dos pobres, pois ela segue sendo um reduto de classe média.

E quanto à juventude de clase média, se trata de buscar políticas orientadas a facilitar, entre outras coisas, a emancipação através de subsídios, por exemplo a compra da primeira casa própria, ou orientados a reduzir o preço dos aluguéis. É notória também a ausência de uma política universitária mais definida.

Do ponto de vista mais simbólico, a estratégia comunicacional do Governo ignorou a juventude durante anos e há pouco tempo começou a considerá-la. E sua política cultural, de tradição, “jauretcheriana” e” pacourondista” parece limitada somente aos jovens dos anos 60 e 70, sem considerar os jovens de hoje.

Não há muito mistério: se trata de atender as necessidades de uma juventude repartida e registrar a politização de um setor dos jovens, fenômeno que o mesmo kirchnerismo gerou e que parece estar negligenciando.

Tradução de Cristieni Castilhos

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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