Brasil: Telenovelas, uma paixão brasileira
21/05/2008 - 01:34 | Editado por Roberto BlumFonte: Le Monde.
Será que o terrível Marconi Ferraço voltará aos braços da querida Maria Paula? Ele conseguirá reconquistar a menina que seduziu, roubou e abandonou grávida? Acreditar é difícil. No entanto, os rumores o anunciam, com persistência no Brasil. Teremos certeza na sexta-feira, 30 de maio, quando deverá acabar a telenovela Duas Caras na rede Globo. Até lá, o insuportável suspense continuará.
Todas as noites, exceto aos domingos, dezenas de milhões de brasileiros assistem a suas novelas, o maior produto cultural do país. Este é um fenômeno de massa, durável, impressionante em um país onde permanece uma forte tradição oral; 4 em cada 10 alunos do secundário dizem viver em famílias que possuem menos de 10 livros, e onde a televisão se torna onipresente.
Entre as 17h30 e 22h, a Globo difunde, só ela, quatro novelas. Nos bares e lojas, onde a televisão fica ligada a qualquer hora, as novelas acompanham os clientes no início da noite. Telefonar para a residência de um brasileiro na hora da novela é falta de educação. Até mesmo o futebol, a outra paixão nacional, tem de esperar. É impensável a realização de partidas noturnas antes do fim da novela.
Ao contrário das soap operas norte-americanas ou européias, as novelas têm uma duração de vida limitada: cerca de 200 capítulos são difundidos em um período de 7 a 8 meses. São melodramas realistas que misturam todos os ingredientes do gênero. Amor, ciúmes, e traição. Esperanças, dores, e rios de lágrimas. Suspense, tragédias e finais felizes. Desde a metade do século XX, esta formula foi muito usada. No âmago do enredo principal, quase sempre existe um casal de amantes, que deverá superar mil obstáculos erigidos por seus inimigos para saciar sua paixão. Com freqüência, jovens ricos se apaixonam por lindas, porém pobres mulheres, crianças adotadas reencontram seus verdadeiros pais, filhos desaparecidos reaparecem.
Ao longo dos dias, uma telenovela pode encenar até 80 personagens. No subúrbio oeste do Rio de Janeiro se encontra a “Hollywood Brasileira”, onde se situam os estúdios da Globo que são os maiores da América Latina e mobilizam em torno de mil e quinhentas pessoas. Nestes estúdios são filmadas as quatro novelas quotidianas para as quais a Globo dispõe de seiscentos e cinqüenta atores e atrizes permanentes. Para um artista, a participação na novela das 21h, o horário nobre, é uma prova de fama. Cenaristas, atores, músicos, todos querem fazer parte. Este é o melhor trampolim para crescer na carreira, o meio mais certo de se lançar uma música. A novela é uma máquina poderosíssima para ganhar dinheiro, um produto de exportação lucrativo. Quarta rede mundial, depois das três grandes norte-americanas, a Globo vende, a cada ano, 45 mil horas de novelas a mais de cinqüenta canais estrangeiros.
As novelas também são formidáveis suportes publicitários. Elas podem vender tudo, até mesmo as jóias usadas pelas atrizes. Elas influenciam a moda: roupas, cozinha, penteados, etc. Atualmente a “franga” da Sylvia, uma personagem de Duas Caras, está fazendo furor. “Mas cuidado, previne a respeitável revista Veja, essa franga não convém a todo tipo de mulher”.
A novela é um objeto midiático por excelência. Páginas inteiras da imprensa são dedicadas às novelas a cada semana. A preocupação do suspense não impede os suplementos de TV de publicar o resumo das sete telenovelas do momento, adiantando os acontecimentos mais importantes. O gênero tem mesmo suas raízes acadêmicas. O seu melhor especialista, Mauro Alencar, é Doutor em Telenovelas pela Universidade de São Paulo.
A grande qualidade técnica das novelas, roteiros, cenários, filmagens, música, explica seu efeito massivo. A descrição bastante próxima da realidade social – Duas Caras corre em parte em uma favela – contribui para que o público de identifique com os personagens. A telenovela da noite é um dos raros interesses comuns entre os ricos e os pobres no Brasil. Os últimos e mais numerosos, ascendem virtualmente a um status social superior copiando as atitudes e modas dos heróis ricos.
As novelas chegam a modificar profundamente os comportamentos sociais? É o que afirma Eliana Ferrara, pesquisadora no Centre for Economic Policy Research de Londres e na Universidade Bocconi de Milano. Segundo ela, se a taxa fecundidade passou de 6,3 crianças por mulher em 1960 para 2,3 em 2000, isto se deve, em parte, à propaganda realizada nas novelas. Estes programas chegam a influir de maneira marcante até mesmo na escolha dos nomes de recém nascidos.
A novela reflete a sociedade ou a transforma? Provavelmente os dois. Desde o primeiro beijo na boca mas com lábios fechados – em 1952 – muitos tabus caíram, entre eles o da homossexualidade. Uma das forças das telenovelas brasileiras é seu caráter interativo. Elas são obras adaptáveis cujos cenários sempre integram as reações do público e onde somente quinze capítulos são filmados com antecedência.
“Não vou de encontro aos desejos do público” diz Aguinaldo Silva, autor de Duas Caras. Por esta razão, o malvado Ferraço, cuja redenção é desejada pelo público, deverá casar-se com Maria Paula.
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Roberto M. Peixoto
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